POV: AIRYS
Ela cuspiu com força no rosto dele, o olhar ardendo de ódio.
— Você é um monstro, Falconi. — a voz dela falhou, mas o desprezo era claro. — Que tipo de pai doentio machuca a própria filha? Que tipo de desgraçado tortura ao invés de proteger?
Ele riu. Um som distorcido. Frio. Insano.
— Do tipo que não se importa em matar a própria filha se isso significar alcançar a ascensão do poder divino! — declarou com um brilho fanático nos olhos.
A boca da minha mãe se abriu, mas não conseguiu responder. Ela apenas... parou. Segurou o ar como se tivesse levado um golpe no peito. Os ombros tremiam.
Eu não conseguia respirar. A frase ainda ecoava dentro de mim: matar a própria filha... poder divino...
— A ascensão do poder divino? — Daimon repetiu em um tom grave, perplexo, os olhos ainda fixos na cena. Sua voz carregava mais do que surpresa.
Ele franziu o cenho, pensativo.
— Como ele conseguiria isso sem ter Fenrir... ou... — A frase morreu na garganta dele.
Seus olhos se voltaram para mim. Lentos. Firmes. E, então, arregalaram-se.
— É isso... — ele murmurou, os tons terrosos agora iluminados por algo entre compreensão e choque.
Franzi o cenho, sem entender. O quê? O que foi isso? O que sabia?
Antes que pudesse insistir, o som metálico de algo arrastando pelo chão interrompeu tudo.
CHHHHRRRRRRRR...
Nos viramos ao mesmo tempo. A visão atingiu como uma facada no estômago.
Falconi arrastava uma barra de ferro pesada. A ponta dela... estava incandescente. Vermelha, pulsando calor.
— Não... — murmurei, recuando um passo, a voz falhando.
Ele se aproximava do corpo da garotinha, de mim, ainda desmaiada no chão frio da cela.
— Isso é para te fazer lembrar... — ele disse, cada palavra carregada de ódio sádico. — De que, por sua culpa, sua filha será marcada como uma vergonha.
— Não faça isso, ela é só uma criança! — minha mãe implorava, lutando contra as correntes com uma força que vinha do desespero puro. — Seu maldito! Monstro! Não ouse marcar a minha filha!
Ela puxava os braços com tanta força que o som do metal rangendo se misturava aos gritos. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas e raiva, um rosnado preso na garganta.
Falconi riu. Um som diabólico, doentio, como se se alimentasse do sofrimento dela.
Ele ergueu a barra de ferro incandescente, segurando firme, prestes a afundá-la na carne da criança desacordada no chão.
— NÃO, SEU DESGRAÇADO! — O grito saiu de mim antes que eu pudesse pensar. Meu corpo se moveu por impulso, avançando pela cela como se eu pudesse atravessar o próprio tempo e impedir aquilo.
Todos se viraram. O som de seus movimentos ecoou como trovões no ambiente estreito e úmido.
— Quem é você?! — Meu pai se virou com as sobrancelhas arqueadas, sem me reconhecer, os olhos mergulhados em raiva e confusão.
Daimon me agarrou num segundo.

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