POV: AIRYS
— Vou dar um jeito de te encontrar. Sempre dou. — disse com uma tranquilidade absurda, apontando para o meu pulso. — Estamos amarrados, lembra? Um pertence ao outro.
Engoli seco. Meu coração bateu descompassado.
E então... ele puxou a porta.
Fechou.
Na minha cara.
O som do impacto ecoou alto.
— Daimon! — bati na porta, os punhos tremendo. — DAIMON!
Do outro lado, tudo virou caos. Eu ouvia. O som das garras, os rosnados, o estalar de ossos, pancadas, rugidos abafados.
Mas ele não podia matar ninguém.
Não ali.
Não no passado.
E isso tornava tudo ainda mais perigoso.
Ele estava lutando... limitado.
Por mim.
— Merda! — gritei, socando a porta com toda força que me restava. O som abafado do impacto só fez aumentar a minha angústia.
Minha respiração estava descompassada, o peito arfando. Foi quando senti algo frio tocar meus cabelos.
Levantei o rosto devagar. A neve caía em flocos pesados, acumulando-se nos meus fios, gelando até o couro cabeludo. O contraste do calor do corpo com o toque gelado da neve me arrepiou inteira.
Mas não era só isso.
Senti. Aquela presença.
Um arrepio deslizou pela minha nuca até a base da coluna.
Virei lentamente, o coração acelerando.
Rosnados baixos romperam o silencio.
E então a vi.
A loba branca. Sentada sobre as patas traseiras, cabeça levemente inclinada, os olhos fixos nos meus. De novo. Sempre ela. Imponente. Silenciosa. Um enigma vivo.
— Você de novo... — murmurei, recuando um passo, o olhar fixo nela. — Vai me atacar de novo, é isso?
Ela não respondeu. Só ficou ali. Me estudando.
Depois se levantou, caminhando com leveza sobre a neve espessa. Deu poucos passos, então virou o rosto por cima do ombro, como se... esperasse. Apontou com o focinho para que eu a seguisse.
Olhei uma última vez para a porta. Me aproximei e toquei-a com a ponta dos dedos, como se pudesse atravessá-la e alcançar Daimon.
— Fique bem, Alfa... — sussurrei, sentindo a garganta arder. — E me encontre.
Virei de costas e fui atrás da loba branca.
Ela me levou até a entrada de uma caverna. O vento ali parecia mais forte, mais denso. A luz diminuía à medida que eu entrava.
— Você não vem? — perguntei ao perceber que ela havia parado na entrada, imóvel, como uma guardiã.
A loba apenas se virou de costas, firme, sem emitir som algum.

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