POV: AIRYS
As lágrimas escorriam quentes pelas minhas bochechas. Eu sentia a dor daquela criança como se fosse agora. Porque era. Era meu corpo ali. Era a minha essência sendo acorrentada.
Era a minha verdade sendo enterrada viva.
— Mamãe... tá doendo muito... para... — A voz da pequena tremia, os lábios trêmulos, o choro misturado com gemidos baixos e desesperados.
Mas minha mãe... ela continuava.
Cantava.
As correntes apertavam mais. Se cravavam na carne da menina, afundando como se estivessem se fundindo ao corpo. A pele enrubescia, depois queimava. O cheiro do ferro aquecido com pele era real demais.
— Está queimando! — a pequena gritava, o corpo se arqueando sobre a pedra. — Eu não quero! Para! Tá machucando... para com isso!
Eu me encolhi. Arfei. Meus dedos tremiam.
— Por favor, Airys... fique quieta. É para o seu bem... — minha mãe implorava, a voz embargada, e ainda assim... voltava a cantar.
Ela sabia que estava machucando. E mesmo assim... continuava.
— Não! Eu não quero! — A criança começou a se debater, a cabeça balançando de um lado para o outro. — Vocês querem tirar ela de mim! Ela é minha amiga!
Meu corpo gelou.
— Ela quem? — sussurrei, sentindo um calafrio descer pela espinha.
As palavras da pequena ecoava.
— Para mamãe! Ela tá ficando brava! Não machuquem ela!
Foi então que tudo mudou.
A atmosfera congelou. Literalmente. O ar pareceu se compactar ao meu redor. A escuridão tremeu. Um rugido poderoso explodiu do peito da menina. Tão forte que reverberou pelas paredes da caverna como um trovão vindo do inferno.
Vi.
As unhas dela se estenderam, transformando-se em garras afiadas. Os olhos dourados brilharam, mas havia algo mais ali, uma linha vertical selvagem, como um fenda de fera, cortando a íris.
Ela se ergueu.
As correntes estalaram.
O corpo se forçou para cima, os músculos pequenos, mas tensos, rosnando com dentes expostos, presas. Claras, afiadas, letais.
E então... eu vi.
A sombra.
Atrás dela, projetada nas pedras da caverna... não era humana.
Era um lobo.
Um lobo inteiro. Forte. Selvagem. Vibrando em fúria.
Meu coração quase parou.
— O que... — minha voz falhou.
A criança rosnava. A cabeça tombada para o lado, os olhos brilhando, o corpo tremendo. Ela não parecia assustada.
Parecia... protetora.
— Não... não pode ser. — exclamei, com a respiração presa, os olhos arregalados enquanto dava um passo instintivo para trás. — Isso é real?
Mas era. Eu sentia.
A caverna parecia respirar ao redor. O ar estava denso, o chão vibrava com a tensão. A voz que saiu da minha versão pequena não era mais de uma criança.
Era algo mais.
— Não deveriam ter feito isso. — disse ela, a voz grave, mesclada com rosnados viscerais que reverberaram pelas paredes da caverna. Não era só um aviso. Era uma sentença.
— Contenham ela! Precisamos finalizar o ritual ou...
A mulher de manto nem terminou a frase.
A pequena Airys avançou num salto animalesco, cravando as presas no pescoço da feiticeira. Um estalo seco, um grito sufocado... e sangue. Muito sangue.

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