POV: AIRYS
Ergui a cabeça, os olhos vermelhos de tanto chorar, e gritei para os céus como se eles pudessem me ouvir:
— EU SOU A VERDADEIRA MONSTRA AQUI!
Gritei até a garganta arder, até a alma ecoar a dor que me consumia.
Caí para frente, os dedos afundando na neve. Esfreguei as mãos com força, como se pudesse apagar o sangue, apagar o que tinha feito.
Foi quando vi.
As patas brancas pararam à minha frente.
Congelei.
Ergui o rosto, trêmula, os olhos ardendo de dor, e ali estava ela.
A loba.
Branca como a neve.
Imóvel. Forte. Silenciosa.
Me encarava com olhos dourados, os meus olhos. O vento passava por nós, mas ela não se movia.
— Você... — minha voz falhou. Engoli em seco. — Você sou eu... não é?
Arfei, tremendo, um arrepio percorreu minha espinha.
— Você é... a minha loba.
Ela assentiu devagar, grunhindo baixinho. Aproximou-se e encostou o focinho nas minhas mãos com delicadeza. O toque gelado e suave arrepiou cada centímetro da minha pele. Um gesto tão simples... e ainda assim, tão carregado de significado.
— Você não está mais presa, não é isso? — murmurei, com a voz falha. — Você não quer emergir... não consegue conviver com o que aconteceu. Se culpa.
O nó em minha garganta apertou até quase me sufocar.
— Meu Deus... você está se punindo. Se trancou dentro de mim como castigo por algo que não podia controlar...
"Não mereço a vida, se tirei a vida mais preciosa para nós."
A voz dela ecoou direto na minha mente. Profunda. Rasgada. Carregada de dor.
Eu tremia. Descontroladamente. Os olhos já tomados por lágrimas. Me virei para trás como se ainda esperasse ver minha mãe ali... depois olhei novamente para minha loba.
E me entreguei.
Enlacei os braços ao redor do pescoço dela e a abracei com força, enterrando o rosto na pelagem espessa e macia. Ela cheirava a floresta, a gelo, a algo antigo... familiar. Seguro.
"Não... você deveria me odiar."
— Eu nunca poderia odiar você. — falei entre soluços. — Nós não podemos mudar o passado. Eu sinto a sua dor. Sinto cada arrependimento, cada grito preso, cada culpa... Você só era uma criança. Estava com medo. Tentaram te arrancar de mim, e você lutou pra ficar.
Arfei, sentindo as palavras rasgarem por dentro.
— Você queria me proteger. Isso não te torna um monstro. Isso... te torna minha.
Senti o toque firme de uma pata em minhas costas. Ela grunhiu baixinho, e dessa vez, não era força. Era vulnerabilidade. Era como se chorasse também. Ela tremia, e eu senti tudo. O medo. O desamparo. O peso esmagador da culpa. Era tanto, tão denso, que respirar doía.
Fechei os olhos por um instante, até que a dúvida me atingiu como um raio.
— Espera. — recuei ligeiramente e a encarei, o coração ainda disparado. — Então eu sou... uma Lupina? Sempre fui?
A resposta veio com um rosnado que vibrou por dentro de mim:
"Mais do que isso." A loba rosnou "Somos da linhagem consagrada ancestral. Divina. Com o sangue puro do clã da Deusa Selene."
O ar me faltou. Arregalei os olhos, a respiração travou. O mundo pareceu parar por um segundo.
— A Consagrada... — sussurrei, a mente girando. — Não pode ser... como?
"Não há tempo." Ressoou alto em minha mente e profunda, carregada de urgência. "Você me encontrou... e sinto o perigo se aproximando dos nossos filhotes."
O rosnado da loba ecoou forte, selvagem, enquanto ela se afastava, indo até a beira do penhasco. Sentou-se sobre as patas traseiras e ergueu o focinho para o céu, como se chamasse os deuses ou desafiasse os demônios.
— Você pode me ajudar a encontrá-los? — perguntei, me aproximando com o coração aos pulos. Sentei-me ao seu lado, os olhos fixos nela.
"Para isso... eu precisarei emergir." A resposta veio baixa, quase contrariada. Firme. A loba estava hesitante. E mesmo assim... disposta.
— Eles precisam de você. — murmurei, deslizando a mão por seus pelos brancos e sedosos. Um arrepio atravessou meu corpo com aquele contato. — Eu preciso de você.
Ela me encarou.
Aqueles olhos amarelos, selvagens, brilharam como fogo líquido.

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