POV: AIRYS
Toquei meu rosto devagar, com a ponta dos dedos. A pele estava mais sensível, mais viva. Cada contato parecia percorrer direto até o centro do meu corpo. O ar ao redor vibrava, sutil..., mas perceptível.
Meus ouvidos se moveram sozinhos, espasmos leves como se estivessem tentando captar sons escondidos na atmosfera e eu ouvia. O farfalhar da madeira. O sussurro do vento. O silêncio respirando pelas paredes.
Me levantei.
Ao tocar o chão gelado com a ponta dos pés, um arrepio subiu por toda a minha espinha, me fazendo encolher os ombros. O frio atravessava minha pele como se quisesse provar que eu era real.
Calcei as botas pesadas deixadas ao lado da cama. Ao lado delas, roupas de tecido espesso me aguardavam. Me vesti devagar, o tecido roçando pela pele sensível me provocava sensações que antes jamais teriam me afetado.
O ambiente era sóbrio, misterioso, mas foi o espelho no canto que capturou minha atenção.
Me aproximei dele.
Inclinei o rosto com cautela, como se fosse encontrar alguém do outro lado.
E encontrei.
— Meus olhos... — sussurrei, surpresa, arregalando-os para confirmar o que via.
Estavam... diferentes.
O dourado queimava nas íris, mesclado com um amarelo intenso, cortado por uma linha vertical feroz, predadora. Um olhar que intimidava. Que dominava.
Minha expressão também havia mudado. Os traços estavam mais definidos, o maxilar mais marcado, os lábios mais destacados, os cabelos platinados... com mais volume, quase selvagens. Belos demais.
Minha aparência gritava o que eu me tornei.
— Definitivamente... mais bela. — comentei, arqueando a sobrancelha com um meio sorriso, passando os dedos pela linha do maxilar. Meu toque provocava um arrepio involuntário que me fez suspirar.
Inclinei a cabeça, estreitando os olhos.
Algo se mexia lá dentro. Atrás do reflexo. Uma presença.
— Oi? — chamei, hesitante. A voz saiu baixa, quase íntima. — Você está aí... não está?
O silêncio me respondeu com um arrepio.
— Eu sinto você... — murmurei, encostando a palma no espelho, o coração acelerando.
Dentro de mim, algo se moveu. Um calor se espalhou por minhas costelas, pelo abdômen, subindo como uma brasa viva.
Ela se aproximava devagar. Cautelosa. Mas imponente.
E eu sentia.
A pele formigava. Cada pelo do corpo se eriçava como se antecipasse o toque que ainda não veio. Um calor diferente se espalhava sob minha pele, como se os pelos dela se entrelaçassem aos meus em um abraço silencioso... antigo... íntimo.
Diante do espelho, a superfície brilhou e então, ela apareceu.
A loba.

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