POV: AIRYS
— Airys! — Sua voz ecoou como um trovão. Imponente. Voraz.
Ergui o olhar, arfando, os olhos lacrimejando pelo vento, pelo medo... pela raiva.
E então eu vi.
Dois lobos correndo atrás das crianças.
Dois.
E não eram quaisquer lobos.
— Malik e Falconi... — cuspi os nomes como veneno, sentindo o gosto amargo subir pela garganta. O sangue ferveu nas veias. Meu corpo inteiro reagiu num estalo, como se uma descarga elétrica tivesse me atravessado. — Malditos. Eles não vão encostar um dedo nos meus filhos.
Minha voz já não era completamente minha. Estava distorcida, oscilando entre o tom humano e o rosnado da loba. Rielly estava na superfície. Quase assumindo. E eu não iria impedir. Não agora.
O Alfa, virou o rosto em minha direção. A língua deslizou lentamente sobre as presas, como um predador saboreando a caçada antes mesmo de atacar. O olhar dele era puro instinto, brilho de excitação estampado no vermelho cintilante dos olhos.
— Então proteja-os. — disse com prazer sádico. — Vamos caçá-los juntos.
Eu estremeci da cabeça aos pés.
O peito subia e descia rápido, o ar queimando na garganta, os músculos vibrando, prontos para o ataque. Meus pés cravaram-se na neve.
“Me deixe emergir, Airys.” Rielly rosnou dentro de mim, tomando o controle. “Eles vão pagar por cada segundo de medo que nossos filhos sentiram. Por cada lágrima. Cada ferimento.”
— Eles vão sangrar. — declarei, com a voz já rouca, quase irreconhecível.
Fechei os olhos, sentindo o calor subir pelo corpo antes que tudo começasse a mudar. Meus ossos estalaram alto, como galhos quebrando. As costelas se expandiram, abrindo espaço para o que estava preso há tempo demais. A pele se esticou, e os pelos brancos cobriram cada centímetro, deslizando como se estivessem sendo costurados sob pressão. Meu maxilar trincou, alargando, os dentes se alongaram, transformando-se em presas afiadas, e o rosto ganhou forma de focinho, forçando meu nariz a captar tudo com precisão brutal.
A dor queimava, mas havia algo mais forte: o poder. O instinto. A fúria.
Os cheiros ficaram mais fortes. O suor de Alec. O medo de Theron. O rastro podre de Malik. A podridão envenenada do homem que me deu a vida e que agora a ameaçava.
Os sons ficaram mais claros. Theron sussurrava para o irmão correr, mesmo com a voz trêmula. Ele tentava ser forte. Tão pequeno, e ainda assim tentando proteger o mais novo. Meu peito doeu. O sangue ferveu.
Farejei o desespero deles. Pânico puro.
E por trás, a sede de sangue de Fenrir. A intensidade bruta de Daimon. A podridão do ódio vindo de Malik. A presença repulsiva do meu pai.
Abri os olhos. Tudo estava mais nítido. As cores vivas, como se o mundo tivesse finalmente sido revelado. E então eu corri.
Sem pensar. Sem hesitar. As patas traseiras impulsionaram meu corpo para frente com uma força que fez o solo tremer. As pernas bombeavam energia pura. O vento batia contra a pelagem branca, mas não importava. Eu estava indo até meus pequenos.
Fenrir correu ao meu lado. Não disse nada. Só olhou de canto. Havia admiração, fascínio e orgulho em seus olhos. Companheirismo. Conexão.
O lobo cinza avançava, pronto para saltar sobre Theron.
Mas chegamos antes.
Saltamos juntos. Fenrir desferiu uma patada tão forte que fez Malik ser lançado no ar, girando e rolando pela neve, uivando de dor.

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