POV: DAIMON
Saltei contra os dois lobos com toda a força do meu corpo, as garras cravando contra suas carnes dilacerando sem piedade enquanto os arremessava contra uma porta de madeira velha e rachada. A estrutura cedeu sob o impacto, estilhaçando-se ao redor quando atravessei com os pés firmes, deixando o chão tremer sob meu peso.
O sangue escorria das minhas presas. Sentia o gosto metálico ainda na língua. Respirei fundo.
Foi quando o cheiro me atingiu.
Forte. Vivo. Meu.
Ergui o olhar e o vi.
Ali, no centro do caos, cercado por destroços e ameaça, estava meu filho. O queixo erguido, os punhos cerrados, enfrentando a fera sem desviar o olhar. O lobo negro diante dele exalava malícia e prazer. E mesmo assim, o pequeno se manteve firme. Ele tremia, era evidente, mas não recuava. Não chorava. Não pedia ajuda. Os olhos, da mesma coloração que os meus terrosos profundos e intensos, queimavam em fúria contida.
“Nosso primogênito.” A voz de Fenrir vibrou em meu peito como um trovão de orgulho bruto. “Sangue nosso. O mesmo instinto. A mesma coragem. O mesmo fogo.”
Arqueei uma sobrancelha, o maxilar tenso. Meu peito se expandiu com violência, sentindo o peso do que via.
O filhote estava disposto a morrer lutando. Como um verdadeiro Fenrir.
— Atacando filhotes indefesos, Raiker? — minha voz saiu em forma de rugido, rouca, carregada de desprezo. Dei um passo adiante, sentindo as tábuas do chão rangerem sob meu peso.
Raiker recuou meio passo, os olhos arregalados por um segundo. Só um segundo, o suficiente para saber que ele não esperava que eu soubesse que era ele.
— Você realmente achou que eu não reconheceria as maldades do meu próprio irmão? — avancei mais um passo.
— Levou mais tempo do que eu esperava, Daimon — ele respondeu, rosnando entre os dentes. O corpo dele tremia, não de medo, mas de antecipação. De raiva. — Acho que aquela humana te deixou mole.
"Despedace-o", rosnou Fenrir dentro de mim, selvagem, impaciente, querendo tomar o controle. "Arranque os olhos dele, um de cada vez. Faça-o se ajoelhar."
— Hunf… mortos não deveriam falar tantas besteiras, Raiker. — Estalei a língua com arrogância, o som ecoando pelo ambiente tenso enquanto caminhava de um lado para o outro como uma fera prestes a atacar. Meu olhar não se desviava dele, mas eu sentia os olhos do garoto me seguindo, atentos, confiantes, mesmo tremendo.
— Me diga, irmão — rosnei com desprezo, sentindo os dentes pressionarem a gengiva com a força do controle — como exatamente escapou da morte?
— Deveria ter conferido se sua presa estava realmente morta — ele respondeu, a voz carregada de sarcasmo. Voltou à forma humana, arrastando os pés no chão coberto de lascas e poeira. As mãos foram até o pescoço, onde seus dedos deslizaram pela cicatriz larga e funda. A marca da mordida que eu deixei quando o tentei matar.
A cicatriz pulsava, ainda lembrava do sabor de seu sangue em minhas presas de forma vivida. Era uma ferida que deveria ter acabado com ele naquela noite.

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