POV: AIRYS
— Por favor, filha... me poupe... — ele gemeu, o corpo se contorcendo no chão frio, os membros já sem força. A pele estava pálida, os lábios tremiam. O sangue escorria em abundância pela barriga aberta. Os órgãos expostos pulsavam, prestes a ceder completamente.
— Me deixe ir... eu juro... nunca mais vou te machucar. Nunca mais vou me aproximar...
Permaneci imóvel por um instante, observando. Os olhos dele tremiam, imploravam. Pela primeira vez, ele parecia pequeno. Fraco. Insignificante. Como sempre foi de verdade.
Arqueei as sobrancelhas, abaixando o rosto até que nossas visões se cruzassem. A expressão dele se contorceu de medo.
— Quantas vezes minha mãe te implorou para deixá-la ir? — perguntei, com a voz baixa, firme, tão fria que poderia cortar. Soltei a cabeça dele, permitindo que a erguesse para me encarar. — Quantas vezes ela pediu por misericórdia?
Ele hesitou. Engoliu em seco. E por fim, respondeu:
— Muitas... — rosnou, com relutância. — Mas era diferente. Eu só queria que ela cumprisse seu propósito.
O silêncio pesou. O peito arfava. O controle do meu corpo oscilava entre mim e Rielly, as emoções se embaralhavam entre dor e ódio.
"Ele nunca viu vocês como pessoas. Só como ferramentas." Rielly falou com amargura, afiada. "Agora ele vai sentir o que é ser descartado."
— Você tirou dela o direito de viver. De escolher. — rugi, firme, trincando os dentes. — Privou minha mãe de me criar, de me proteger, de me ensinar. De me ver crescer.
Ergui a pata. E desci com força brutal contra o corpo dele.
O impacto foi seco.
Ele uivou de dor, arfando em seguida. O som era grotesco. Mas não me detive.
— Ela morreu sozinha, sangrando por sua culpa. E eu cresci achando que também deveria me calar. Não mais. — declarei.
Desferi outra patada. E mais uma.
A cada golpe, o corpo dele era lançado para o lado. O som dos ossos cedendo preenchia o ar. O sangue jorrava, espesso, manchando minha pelagem. As patas escorregavam, mas eu continuava.
As forças dele se esvaíam. Os gritos se tornavam fracos, distantes, quase sussurros.
O corpo tremia.
Mas o meu, jamais esteve tão firme.
Eu sentia tudo.
— Por favor, filha... — ele gemeu com a voz falhando, quase sem forças. — Você vai me matar assim...
— Papai? — murmurei, me aproximando devagar, arrastando as patas pesadas pela neve manchada de sangue. Abaixei o focinho até a altura do ouvido dele, respirando contra sua pele gelada. — Esqueceu do que disse sobre mim?
Ele tremeu. A voz dele saiu trêmula, patética.
— Filha... por favor... me perdoa...
— Eu sou um monstro, lembra? — rugi, feroz, a voz embargada pelo peso da dor e da raiva acumulada. O peito subia e descia em arfadas pesadas, o ar entrando quente e saindo rasgado. Os olhos ardiam, as patas vibravam no chão.
"Se afaste, Airys!" Rielly gritou, com o tom mais agudo do que nunca. "Me deixe assumir! Feche os olhos, deixe o resto comigo!"
Mas eu não queria fugir.
Não dessa vez.
— Não! — gritei de volta, a voz quebrando junto com o coração. As lágrimas escorriam pelo rosto, misturando-se ao sangue. — Não vou mais me acovardar diante dele. Não vou mais fugir. Não vou mais me encolher enquanto esse desgraçado machuca as pessoas que eu amo.
"Airys, afasta-se agora!" Rielly ordenou mais alto, o tom urgente, tentando me puxar para dentro da minha própria mente.
Mas eu resistia.
— Eu... — a palavra saiu fraca, gaguejada, enquanto o corpo tremia. O olho direito foi tomado pelo brilho dourado de Rielly. O esquerdo continuava com meu amarelo intenso, mas os dois agora carregavam a mesma dor.
— Eu não consegui protegê-la. Eu não consegui salvá-la dele. — murmurei, sentindo a respiração falhar, o peso das lembranças me sufocar. — Eu sou um monstro mesmo...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A LUNA HUMANA VENDIDA AO ALFA SUPREMO