POV: DAIMON
— Sua essência podia ter sido fragmentada entre nós três. — Raiker gargalhou, distorcido. — Ou nosso pai podia ter simplesmente escolhido um de seus filhos para selar o acordo. Mas o velho era um covarde. Dizia que não queria condenar os próprios filhos a carregar um demônio preso dentro da alma.
Ele me olhou com um sorriso de escárnio.
— Essa fera que você tanto protege... essa que te força a um pacto, a que você defende como se fosse parte de você. — Ele avançou um passo, os olhos vibrando em loucura. — Ela enlouqueceu nosso pai. Desgraçou tudo o que tocou. Por quê? Por que queria uma destinada? Por que afrontava a Deusa? E agora... você a idolatra? Depois de tudo?
— Se o odeia tanto assim... — rosnei, caminhando ao redor dele enquanto ele fazia o mesmo, formávamos um círculo tenso, os corpos rígidos, o cheiro da tensão e da raiva impregnado no ar. — Então por que quer ascender com a alma Lupina ancestral de Fenrir?
Raiker sorriu. Lento. Gelado. Doentio.
— Porque, ao contrário do covarde do Klaus... e do fracassado do nosso pai, eu vejo o valor da Fera ancestral. — Os olhos dele não piscavam. — Viver por milênios. Obrigar todos a se ajoelharem. Ser adorado. Criar guerras, dominar territórios, colecionar mulheres, gerar uma nova linhagem pura, apenas o meu sangue com o da Deusa, apenas essências ancestrais!
— Então foi por isso que foi atrás da minha Luna? — avancei com violência, o rosnado vibrando no fundo do peito, sentindo o ódio ferver como ácido em minhas veias. — Você queria tomar o que é meu?
— Convenhamos... — ele debochou, se esquivando da minha mordida com um movimento ágil. — Ela é uma fêmea bastante agradável aos olhos.
Ele riu — aquele som nojento, provocativo — e aproveitou a brecha para girar o corpo e cravar uma das patas na lateral do meu tronco. O impacto me fez recuar meio passo, mas não quebrei o foco. O sangue escorria quente pela pele.
— Você foi esperto, Daimon. — ele continuou rindo com sarcasmo. — Notou a essência dela, e a manteve como prisioneira. Uma fonte perfeita de herdeiros poderosos, uma nova linhagem. No fim, não somos tão diferentes, irmãozinho...
— Hunf... Airys é muito mais que uma companheira. — rosnei, trincando os dentes até sentir a mandíbula estalar. A visão já mergulhava no vermelho. — Ela é minha destinada. Minha parceira. Minha vida. Minha morte. Eu nunca a usei. E nunca usarei. Isso é o que nos separa, Raiker...
"Ele cruzou o limite." Fenrir rugiu, tão alto que parecia estar nas minhas costas, não apenas na minha mente. "Agora vamos despedaçá-lo."
— Você é fraco. Patético... igual ao Klaus. — ele gritou, e avançou com toda a força.
Tentei desviar, mas ele mudou o ângulo no último segundo e afundou as presas no meu ombro já ferido. Um rugido grave escapou da minha garganta enquanto sentia os dentes dele rasgarem mais fundo. O sangue espirrou em filetes quentes, manchando o chão.
— É por isso que vou tomar sua esposa. E os seus filhos também. — ele rosnou, com a boca ainda cravada em mim.
— Vai precisar me derrotar primeiro. — rugi, cravando as duas mãos na lateral do corpo dele. Senti a carne ceder sob meus dedos enquanto as garras se estendiam, atravessando suas costelas. Desci lentamente, rasgando músculo por músculo, fibra por fibra.
O grito que ele soltou ecoou pelas paredes. Alto. Cru. Agudo. Era o som da dor verdadeira. E para mim, soou como uma sinfonia perfeita.
— Eu fiz uma promessa à minha pequena humana. — falei por entre os dentes, com a voz vibrando. — E ao meu garoto. Nunca mais vou me afastar deles.

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