POV: DAIMON
Me agachei e me deitei Airys com cuidado no chão coberto de folhas úmidas. Seu corpo estava frágil, frio. Os olhos dos trigêmeos se arregalaram. Theron franziu o cenho de imediato, a expressão fechada.
Sem dizer mais nada, mutei.
O estalo da transformação foi seco, brutal. Senti as feridas se abrirem novamente, o sangue escorrer quente pelas laterais do meu dorso. As patas se firmaram no solo. O corpo se esticou, mais pesado, mais resistente, mesmo com a dor.
Rangia as presas, mas mantive a postura firme.
Não podia cair.
Não agora.
— Puxem sua mãe para minhas costas. Montem também. Vamos nos mover rápido. — ordenei, a voz saindo em uma mistura de sons guturais e autoridade absoluta.
Eles hesitaram.
— Nossa... você consegue levar todos nós? — Alec perguntou baixinho, o olhar fixo no meu corpo colossal em forma de lobo.
— Claro que consegue. — Orion respondeu antes que eu dissesse qualquer coisa. — O papai é enorme.
O tom dele era firme, confiante e admirável.
Theron permaneceu em silêncio.
Mas observava.
Eles se moveram com cuidado, coordenando os próprios passos como se já tivessem feito aquilo juntos antes. Ajudaram a colocar Airys sobre minhas costas, com uma delicadeza que eu não esperava de crianças tão pequenas, tão marcadas, mas ainda tão protetoras entre si.
Notei como Alec era o centro das atenções silenciosas dos dois. Orion guiava, Theron vigiava. O mais novo tinha um cheiro sutilmente diferente... mais doce, mais suave, com uma energia distinta. Mas guardei aquilo. Não agora. Não ainda.
Orion puxou Alec com firmeza, ajudando-o a subir logo atrás de Airys. Posicionou o irmão perto do corpo da mãe, como se instintivamente soubesse que ele precisava daquele contato para se sentir seguro.
Alec se agarrou ao ombro de Airys e arfou baixo, sentindo o cheiro dela, se encolhendo como se o toque da mãe fosse o único lugar seguro do mundo.
Orion subiu por último, escalando com força e posicionando-se logo atrás. Quando estendeu a mão para Theron, o irmão hesitou.
Ficou parado.
Me encarou direto, desafiando com o olhar. Não de arrogância, mas de medo e orgulho ferido.
Permaneci agachado, firme, com os olhos fixos nele. O focinho voltado diretamente em sua direção, respirando calmo, mas com autoridade visível.
— Theron. — murmurei, com a voz rouca e firme escapando por entre as presas. — Não vou te morder. Nem machucar nenhum de vocês.
Fiz uma pausa.
— Pode me odiar depois, se quiser. — acrescentei com frieza contida. — Mas agora... preciso tirá-los daqui. Sua mãe precisa de tratamento. Vocês precisam viver.
Ele engoliu em seco.
E assentiu.
Subiu em silêncio, sem dizer uma palavra, mas com o olhar ainda fixo no meu.
Me mantive imóvel até sentir o peso dos quatro estabilizar.
— Segurem firme. — avisei em tom baixo. — Vou correr.
Me ergui com força.
As patas cederam por um instante sob o peso somado deles e o próprio cansaço cravado nas minhas carnes. As feridas abertas na transformação latejavam. Queimavam. Mas ignorei.
Dei um tranco, firme, e no mesmo instante ouvi as arfadas das crianças, os braços apertando com força ao redor de Airys e entre si.
Um gritinho escapou da garganta de Alec, surpreso e encantado.
— Uau! — ele disse baixinho, animado, e aquilo rasgou o gelo do momento com uma chama estranha de vida no peito.

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