POV: AIRYS
Minha mente girava, repetindo a cena sem trégua. Eu corria, feroz, com meu corpo coberto por pelos brancos, patas afiadas golpeando a neve, as presas expostas, sedentas por sangue. O instinto me guiava, o ódio queimava por dentro. Eu precisava proteger.
Meus filhos. Meus filhotes.
Os meus, e os dele.
A raiva latejava em minhas veias como fogo líquido, pulsando mais forte a cada passo. Os inimigos surgiam à frente, lobos por todos os lados, cercando, avançando. Mas eu só via um. Só ele me importava.
Um lobo negro colossal, olhos opacos, fedorento de magia, cravava as presas no pescoço de Daimon. Meu Alfa.
A pele se rasgava sob a mordida. Um pedaço do ombro dele foi arrancado diante dos meus olhos. O sangue jorrou como um jato. Meu coração congelou. A respiração falhou. O mundo pareceu parar por um segundo.
Não. Não. Não!
“Não podemos perdê-lo!”
Minha loba rugiu de dentro de mim, um urro que rasgava até minha alma. E sem pensar, sem hesitar, avançamos. As garras cravando o chão, os olhos fixos na morte.
O impacto foi brutal. Fomos detidas no ar, pegas no contragolpe. Mas não paramos. Nos debatemos. O cheiro de sangue era forte. Os gritos e rosnados se misturavam em um som grotesco.
Levei um tapa direto no rosto, minha cabeça virou com a força. A dor explodiu em minha mandíbula. E aquilo... só aumentou meu ódio. Meu desejo de matar.
Foi então que tudo mudou.
A aura dele... explodiu.
A atmosfera tremeu. O mundo pareceu se curvar.
Fenrir assumiu.
O poder que emana da besta é insuportável, brutal, assassino. Os olhos rubros se abriram dentro do corpo ensanguentado de Daimon. Ele não rugiu. Ele não anunciou. Ele apenas agiu.
Cada movimento era letal. Frio. Preciso. Uma dança de morte.
O inimigo quase teve a vida ceifada, sufocado pela força que Fenrir exalava. Era impossível respirar. A energia selvagem dele me tocou, mesmo de longe, e me atingiu em cheio.
Arfei.
O corpo estremeceu inteiro.
A pele se arrepiou como se uma corrente de prazer e medo atravessasse minhas entranhas.
Ele era morte. Ele era desejo. Ele era meu.
Foi quando senti. O medo de Orion. Forte. Vivo. O cheiro das lágrimas dele invadiu minhas narinas como uma lâmina. E antes que eu conseguisse virar para protegê-lo, algo atingiu minha cabeça com brutalidade.
A dor foi imediata, intensa, rasgando minha consciência ao meio. O mundo girou, escurecendo rápido demais. Mas não antes de um cheiro conhecido e nojento me atingir com força.
Traição.

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