POV: AIRYS
Baixei os olhos.
Theron estava agarrado à minha perna como se esperasse o pior, mas fazia de tudo para parecer indiferente. Orion permanecia imóvel, como uma sombra protetora, atento a cada gesto do pai. Alec segurava a barra da minha roupa, os olhos fixos nos meus, sem dizer nada, mas com o coração batendo rápido demais, eu sentia contra minha pele.
Inclinei o corpo e passei os dedos pelos cabelos deles, um de cada vez. Dedos trêmulos. Mãos firmes. Eu precisava daquilo tanto quanto eles. Era nosso ponto de conexão. Nossa âncora.
O aperto no peito aumentou, sufocando. Meus olhos arderam, mas mantive a pose.
Respirei fundo.
Ergui o olhar de novo, mirando diretamente os olhos de Daimon. Aquele tom terroso e intenso, carregado de domínio. Olhos que me provocavam. Que me prendiam. Que me testavam. Como se dissessem que ele já sabia o que eu ia dizer, mas queria ouvir da minha boca.
Mordi o lado de dentro da bochecha. Umedeci os lábios.
— Alfa... — Rosnei firme, determinada em os manter seguros. — Não pretendo retornar à alcateia.
A tensão que se instalou foi imediata.
Theron soltou um "Eita" baixinho.
Daimon franziu o cenho. Os olhos se estreitaram de forma perigosa, e um rosnado grave vibrou no fundo de sua garganta como um alerta prestes a se transformar em explosão. O som reverberou no ar, junto com a pressão cortante de sua presença. O clima ao nosso redor mudou no mesmo instante. O poder dele me atingiu como uma rajada quente, fazendo minha pele se arrepiar dos pés à cabeça.
Ele deslizou as mãos lentamente até os bolsos da calça, tombando a cabeça para o lado como um predador que avalia a próxima jogada. Cheirou em minha direção com descaramento, deixando as presas visíveis o suficiente para causar um arrepio no meio das minhas pernas. As pupilas estavam dilatadas, escuras e dilacerantes.
Eu tremi. De leve, só um pouco. E dei um passo à frente. Teimosia é um talento de família.
— Que tal brincarmos um pouco mais no quintal do fundo, crianças? — sugeriu Jasper, com um sorriso preguiçoso e aquela voz que misturava ironia e despreocupação. Estendeu a mão para os pequenos. — Vamos deixar seus pais resolverem isso… Tranquilamente.
Theron cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha, sarcástico como sempre:
— Civilizadamente? Você viu a cara do papai? Isso aí tá com cheiro de briga de território e não de conversa adulta.
— Vamos, isto aqui está assustador. — murmurou Alec baixinho, seus olhinhos doces arregalados.
Mas antes que eu pudesse responder, Orion se colocou na minha frente. Rígido. Firme. Um paredão de proteção em miniatura. Seu olhar estava sombrio e atento, os olhos varrendo Daimon de cima a baixo. Um rosnado baixo e hostil escapou dele, e eu quase me engasguei com o orgulho misturado ao pânico.
— Não vou deixar a mamãe sozinha. — disse com firmeza, a voz grave demais para alguém de oito anos.
— Ei, meu pequeno guerreiro… — chamei baixinho, inclinando o corpo até alcançar seu rosto. Deslizei a ponta dos dedos por sua bochecha firme, levantando delicadamente seu queixo para que ele me olhasse nos olhos. — Seu pai e eu precisamos conversar, amor. Não precisa me proteger dele. Ele jamais me machucaria… e muito menos machucaria vocês.
Orion franziu a testa. Os olhos estavam estreitos, analíticos, desconfiados. Respirava fundo, como se quisesse controlar a raiva que não combinava com a idade dele. Mas combinava com o sangue que corria em suas veias.
— Mamãe… — ele murmurou, ainda firme, mas hesitando. A mandíbula tensa, os punhos cerrados. — Tem certeza?
Antes que eu pudesse responder, Theron apareceu ao lado dele com aquele sorriso debochado colado no rosto, balançando os ombros com a casualidade de quem vive para provocar o irmão.
— É Orion, o papai é nosso protetor, lembra? — disse, levantando uma sobrancelha com sarcasmo. — Agora para de ser chato e volta a ser criança, seu molenga.
Orion girou o pescoço devagar, encarando o irmão como se tivesse acabado de declarar guerra.

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