POV: DAIMON
Despertei com um baque seco: o pé minúsculo e ossudo de Theron acertou em cheio o lado do meu rosto. Arfei, impaciente, soltando um rosnado abafado enquanto abria os olhos lentamente. Bufei, girando o pescoço, tenso e irritado, até me deparar com a cena inesperada que, contra toda a lógica, aqueceu meu peito como uma chama silenciosa.
Em algum momento da madrugada, os trigêmeos haviam invadido nossa cama, se infiltrando entre mim e Airys, como pequenos predadores sorrateiros. O quarto estava impregnado com os cheiros deles, inconfundíveis, puros, intensos, uma mistura visceral de mim e dela. O aroma Lupinos infantil se espalhava pelo ambiente, espesso, preenchendo cada espaço, marcando aquele território como nosso.
Desviei o olhar para o agressor. Theron, jogado de qualquer jeito, respirava pesado, o peito subindo e descendo num ritmo lento. Sem a menor cerimônia, empurrei seu pé para longe da minha bochecha recém chutada, ajustando o pequeno corpo desleixado no colchão, controlando o ímpeto de sacudi-lo até acordar.
Ao lado, Alec dormia profundamente, encolhida, agarrada com força ao braço da mãe, como se ali fosse seu refúgio inquebrável. Sua expressão serena, os pequenos dedos enroscados no tecido da camisa de Airys, a tornavam ainda mais frágil e indefesa, mas era uma loba, e no sangue dela corria a minha força.
Meu olhar se voltou então para Orion. Como sempre, aquele pequeno reflexo de mim, estava em alerta mesmo dormindo. Sua posição me fez arquear uma sobrancelha, curioso. As mãos dele estavam entrelaçadas com as de Airys e Alec, os pés enroscados na perna do irmão, formando um elo rígido, protetor, impenetrável. Mesmo desacordado, ele mantinha todos próximos, como se seu instinto gritasse que precisava mantê-los seguros.
Me sentei na cama, erguendo o tronco lentamente, apoiando os antebraços nas coxas, analisando cada um deles com a atenção minuciosa de quem avalia o próprio clã…
Minha alcateia.
Minha família.
Minha Luna.
Meus filhos.
Não pude evitar o sorriso discreto que se formou no canto da minha boca. A sensação que se espalhava pelo meu peito era estranha… incômoda… e ao mesmo tempo poderosa.
“Estamos ficando moles.” Fenrir bufou, o som áspero e desprezível ecoando na minha mente enquanto suas orelhas negras peludas e lupinas se erguiam com atenção. A fera se aproximou, tomando posição atrás da janela dos meus olhos, observando os pequenos através de sua visão primitiva, predatória. “Eles parecem não nos temer.”
Levei a mão até os cabelos bagunçados de Theron, os fios macios entre os meus dedos ásperos, acariciando devagar, com a autoridade silenciosa de quem protege… e domina. O pequeno resmungou algo incompreensível, se remexeu, virou o corpo abruptamente e puxou ainda mais a coberta para si, sem a menor consideração, deixando os irmãos parcialmente descobertos.
Suspirei, apertando levemente os fios entre meus dedos, enquanto Fenrir ria, debochado:
“Este será problemático.” Sua voz soou divertida, mas havia uma ponta de respeito disfarçado ali, e eu percebi. “A áurea dele é exótica… travessa… e indisciplinada.”
Soltei um riso curto e seco, arqueando a sobrancelha com desprezo pela obviedade.
— Há sempre um lupino rebelde entre os filhotes. — Respondi mentalmente, indiferente, aceitando o fato como se aceitasse o próprio ar que respiro, inevitável… natural… necessário.
Acariciei mais uma vez os cabelos do pequeno lobo, antes de soltar, deixando que ele se enroscasse ainda mais na coberta, inconsciente, inconsequente… tão frágil e ao mesmo tempo tão cheio de potencial selvagem.
Aceitava cada nuance, cada traço, cada essência de minhas crias como parte de mim. Nenhuma palavra se encaixava melhor…
Amor.
Sim.
Era isso.
Amava meus filhos.
Amava com a mesma intensidade que poderia despedaçar quem ousasse sequer ameaçá-los. Amava com a mesma ferocidade com que liderava, comandava, dominava.
E morreria… ou mataria… sem hesitar, por cada um deles.

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