POV: SIMON
Levantei lentamente o rosto, sentindo a rigidez nos músculos do pescoço. O sangue fervia sob minha pele, e o lobo dentro de mim rosnou baixo, inquieto.
— O que você está fazendo aqui, Mendy? — rosnei, contendo a vontade de avançar, mesmo com as correntes apertando meus pulsos e tornozelos. Ergui os olhos, forçando a nuca dolorida, e a encarei de cima a baixo.
Ela estava impecável. Um vestido justo, vinho escuro, decote ousado. Os cabelos louros estavam presos num coque alto, deixando o pescoço exposto. A maquiagem era pesada, e os olhos verdes cintilavam de prazer doentio. Seu cheiro adocicado invadiu minha cela.
— Está arrumada demais para visitar um prisioneiro, não acha? — cuspi as palavras, deslizando o olhar lentamente pelo corpo dela.
Ela arqueou uma sobrancelha, como se estivesse se divertindo. Mas eu vi. Vi o leve tremor em sua pele, o movimento involuntário dos dedos se crispando ao lado do corpo. Ela sentia. Sentia a ligação. A maldita ligação que nunca conseguimos romper.
— Gostou? — Mendy perguntou, girando o corpo lentamente diante da cela, exibindo o vestido justo de cetim preto com um sorriso debochado. — Não soube? O Supremo está se casando hoje... com aquela loba falsa. No estilo humano.
Arqueei as sobrancelhas, forçando o pescoço machucado para encará-la. Senti o gosto de ferro escorrer da boca. Cuspi sangue no chão frio da cela, arfando com esforço.
— Casando-se no estilo humano? — franzi o cenho, confuso, tossindo mais sangue e limpando a boca com o antebraço.
— Ah, querido... — ela soltou um riso nasalado, provocante. — Acho que você não foi convidado. Nem avisado. Que pena, não é mesmo?
O peito começou a queimar. A tensão subiu pelas costas como uma faísca elétrica. O lobo dentro de mim arranhava minha mente, irritado.
— O que veio fazer aqui, Mendy? — rosnei, sentindo os músculos dos ombros enrijecerem. — Veio se deliciar com a minha desgraça?
Ela se aproximou da grade. O salto bateu seco contra o piso de pedra. O som ecoou no corredor como um aviso. A luz fraca iluminou o rosto maquiado demais, os olhos verdes vibrando com um brilho doentio.
— Eu vim aqui... — disse ela, inclinando o corpo para frente até ficar a poucos centímetros das barras de ferro. — Porque queria olhar bem nos seus olhos e ver a justiça sendo feita. Ver você pagar por todas as merdas que fez.
— Do que você está falando, Mendy? — Me ergui com dificuldade, os músculos tensionados, a coluna gritando de dor. Mas fiquei de pé, firme, me aproximando das grades com o maxilar travado. — Eu te rejeitei. Isso não é crime.
Ela deu um passo à frente. O sorriso em seus lábios se desfez, dando lugar a algo mais sombrio.
— Deveria ser. — Sua voz saiu baixa, firme, carregada de ódio contido. — Tem noção do quanto feriu a minha loba?
Vi quando os olhos dela se dilataram, ganhando um brilho avermelhado. As presas despontaram, afiadas. As garras estalaram ao se alongarem. A pele dela estremecia com a força reprimida da fera.

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