POV: DAIMON
“Excelente início de núpcias, Alfa,” A voz de Fenrir invadiu minha mente carregada de escárnio e desprezo. “Talvez devesse vender cursos... Como ser um péssimo marido em uma noite. Aulas práticas incluídas.”
— Não enche, fera. — resmunguei junto a um rosnado surdo que vibrou no fundo da minha garganta, ecoando pela mandíbula cerrada.
Me virei lentamente em direção à cabana. O ar estava denso. O cheiro dela ainda estava no ambiente, mas agora havia algo a mais. Raiva. Tristeza. Um gosto amargo de decepção pairava no ar.
— Merda... — murmurei, rangendo os dentes.
“Conte logo a ela...” A voz de Fenrir rugiu dentro da minha mente, rasgando a consciência como suas garras raspando contra a barreira entre nós. “Airys tem razão. Ela precisa saber. Precisa estar pronta. Ou você vai destrui-la.”
— Ela e os filhotes já sofreram demais, não acha? — rosnei, entredentes, irritado. Passei a mão pelos cabelos, puxando os fios com força enquanto inclinava a cabeça de lado e encarava a janela do quarto onde ela estava. — O que quer que eu diga? Que se nos transformarmos por completo em Lycans, talvez não voltemos mais à forma humana? Que podemos não a reconhecer? Que ela pode olhar para mim e ver só uma porra de uma besta descontrolada? Uma que você mesmo teme, Fenrir?
“Isso pode não acontecer…” ele bufou, entediado, como se estivéssemos falando de algo irrelevante. Se espreguiçou lentamente, jogando o corpo sobre as patas dianteiras, as orelhas negras se erguendo com desdém. “Não gosto quando elas choram. Ficam tristes. Ficam... quebradas. Vá pedir desculpas.”
— A Deusa fez uma visita a ela, não a nós. — rosnei, com a voz grave, firme, cada palavra escorrendo em frustração contida. Deslizei as mãos pelos bolsos da calça de moletom, sentindo o tecido grosso prender contra os dedos. Meu corpo estava tenso. Minhas veias latejavam. — Por que, você acha que ela procurou nossa companheira... e não a nós?
“Selene nunca foi minha fã. Digamos que sou... um filho rebelde. Um guerreiro sem coleira.” Fenrir soltou um riso seco, carregado de sarcasmo. Depois rosnou, baixo e intenso, erguendo o focinho através da janela da minha consciência, como se o mundo lá fora tivesse cheiro de ameaça. Seus olhos pulsaram dentro de mim, vermelhos como sangue vivo. “Eu mal lembro dos motivos do pacto, Alfa. E antes... não parecia importar entregar minha prole à Deidade. Era o preço. O fardo. O meio de conquistar a liberdade da maldição. E de ganhar uma companheira de alma.”
— E agora somos incapazes de tal ação... — murmurei, passando a língua pelas presas expostas, sentindo o gosto metálico da raiva que escorria de dentro. O ar estava denso, sufocante, e cada célula do meu corpo gritava pela necessidade de reação. Instinto. Sangue. Proteção. Possessão.
“Mas duvido que Selene não nos puna por essa afronta.” Fenrir rugiu dentro da minha mente, selvagem, irado. “Que se dane. Prefiro a maldição a perder nossa filha.”
— Hunf... Ora, até que você leva jeito como pai. — Provoquei intencionalmente, recebendo um bufar impaciente do lobo. — Precisamos ceifar Raiker. Eliminar cada inimigo. Um por um. Antes que sequer cogitem olhar na direção da nossa família.
“Você não planeja...” Fenrir rosnou com fúria crescente, balançando a cabeça com desprezo. Sua voz se arrastava em minha mente afiada. “Quer tornar um dos seus filhotes Supremo sem a minha ascensão!”
Minha mandíbula travou.
— Sem sua essência, não há maldição. — rebati, rosnando, respirando fundo, arrastando o ar quente pelas narinas. — E você sentiu o poder deles. Está ali. Adormecido, mas pulsando. Selvagem. Pronto para rasgar a pele e dominar.

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