POV: AIRYS
— Daimon... precisava mesmo ser assim? — murmurei, com a voz presa. Mordi os lábios, sentindo um gosto metálico. — Você é o Supremo. Poderia ter mudado as leis.
Ele me encarou com aquele olhar pesado, os olhos estreitos, a mandíbula travada.
— Se eu alterasse as leis sempre que me fosse conveniente... — rosnou, a voz baixa e grave vibrando no peito. — As alcateias mergulhariam no caos, pequena.
Suspirei, estremecendo ao ouvir aquele tom firme. Mas ele desviou o olhar, se agachando ao lado do corpo imóvel de Simon.
Observei cada movimento dele com o coração acelerado.
Daimon enfiou a mão no bolso interno do casaco. Tirou uma pequena ampola transparente com um líquido turvo. Sem dizer uma palavra, segurou o maxilar de Simon e forçou sua boca a abrir. Vi seus dedos apertarem com firmeza as mandíbulas, expondo os dentes, até que a garganta ficasse livre. Ele virou o líquido ali dentro.
— O que está fazendo? — perguntei, a voz saiu falha.
Franzi o cenho, sem entender, sentindo um calafrio correr por minha nuca. Um arrepio atravessou minha coluna quando vi o pescoço de Simon tremer levemente. Suas pálpebras se contraíram num espasmo quase imperceptível.
— Estou sendo justo. — Daimon respondeu sem pressa, me lançando um olhar por cima dos ombros. Um sorriso lento e presunçoso se formou na curva de seus lábios, como se tudo estivesse sob controle desde o início.
Antes que eu pudesse rebater, um som rouco me fez gelar.
Simon arfou alto, tossindo em seguida, o som úmido ecoando pelo salão. Seu peito se moveu em um impulso, puxando o ar com desespero. Seus olhos abriram de repente, castanhos, vivos, cheios de confusão e dor.
— Caramba... o que... — minha voz falhou. Me aproximei sem pensar, com os olhos arregalados e a garganta apertada. — O que está acontecendo aqui?
— Porra, isso doeu de verdade. — Simon gemeu ao se mexer, levando a mão até o buraco no peito, ainda úmido, onde a carne começava a se regenerar lentamente. Fibra por fibra, veia por veia, a pele ia se fechando em um processo grotesco e hipnotizante. — Caramba... aquele pirralho levou a luta a sério mesmo.
Fiquei estática por um segundo, tentando entender o que meus olhos estavam vendo. Então explodi.
— Mas que merda é essa?! — soltei, a voz subindo em um tom que nem eu reconheci. — Eu vi você morrendo, Simon. Morrendo! Parado. Sem respirar. Corpo frio! Eu te senti. Você morreu!
Daimon me encarou com o cenho franzido, os braços cruzados, impassível. Simon desviou o olhar, sem saber o que dizer.
— Alguém pode, por tudo o que ainda me resta de sanidade, me explicar o que diabos está acontecendo? — continuei sentindo meu peito subir e descer rápido, o ar ficando preso na garganta. — E como, pela Deusa, você está vivo, Simon?
— Calma, Luna... — Simon tentou, tossindo de leve, ainda fraco.
“Credo, ele parece um cadáver de filme de terror.” Rielly rosnou baixinho, balançando os pelos do dorso, as orelhas peludas em alerta enquanto a cauda se agitava inquieta. “Tem certeza de que ele não virou um zumbi? Melhor garantir e acabar com isso logo.”
— Pequena — Daimon falou, sem sequer virar o rosto, a voz firme e densa. — Enquanto Simon era punido por proteger uma traidora, percebi que havia algo escondido por trás daquilo.

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