POV: DAIMON
Airys ajeitou o corpo devagar, seu olhar focado neles. Ela tentou manter o tom brando, mas eu conhecia cada nota da sua voz e ali havia algo mais: o medo.
— O que vocês sonharam? — perguntou com calma, mas os dedos não paravam de acariciar os fios de Alec, como se precisasse do toque para manter o controle.
— Com a guerra. — responderam os três ao mesmo tempo.
O som uníssono preencheu o quarto como um aviso. Um suspiro preso escapou dos lábios de Airys.
Alec foi quem continuou. A voz dela saiu baixa, embargada, mas firme.
— Alguém que a gente ama muito se fere... — ela disse, olhando diretamente para mim. — Mas eu não consegui ver quem era.
A garganta apertou. Senti o peito se comprimir de imediato, como se algo invisível me pressionasse por dentro, que inquietasse meus instintos. A pequena deslizou o olhar até Airys, depois para os irmãos. Os olhos dela estavam úmidos, sem derramar as lágrimas. Ela não queria nos assustar mais e por isso, segurava.
"Se eu pudesse, trancava todos eles em uma caverna comigo na porta." Fenrir resmungou, sério.
— A mamãe... — Theron começou, a voz embargada, quase um sussurro. — Uivava muito para Lua... desesperada.
Airys travou ao meu lado. Sua respiração prendeu por um segundo. Meus dedos se apertaram ao redor do corpo dos três, e senti Alec estremecer contra meu peito.
Orion continuou, a voz mais baixa, mas ainda assim firme. O impacto do que ele tinha visto pesava sobre suas palavras.
— O cheiro dela... — ele murmurou, os olhos baixos, como se ainda visse. — Era de desespero. De dor. Muita dor. Foi insuportável. Triste. Ver aquilo... ver ela daquele jeito.
Airys respirou com dificuldade, arfando, virando o rosto para esconder a lágrima que insistiu em escapar. A mão dela se fechou sobre o lençol com força, os dedos tremendo. O medo dela estava nítido. Vivo. E eu senti.
Senti tudo.
Orion ergueu o rosto, e quando me encarou, havia algo mais em seus olhos. Não era só medo.
Era a necessidade de saber. A urgência em ouvir da minha boca uma resposta que pudesse silenciar o que ele sentia.
— Papai... — ele perguntou, com a voz firme apesar da tensão. — A gente corre perigo?
"Se disser que não, eles vão saber que é mentira." Fenrir falou, o tom mais sério do que nunca. "Mas se disser a verdade, pode os deixar com mais medo. Escolhe bem, Alfa."
Respirei fundo. Meus dedos deslizaram devagar pelo braço de Orion, até segurar a mão dele. Firme. Segura.
— Há sempre perigo, filho. — falei com a voz baixa, mas carregada de presença e verdade. — O mundo em que vivemos é cruel. É instável. E às vezes, nos testa. Até demais.
Theron fungou e apertou o lençol. Alec manteve o rosto escondido no meu peito, o corpo ainda estremecendo.
— Mas... — continuei, com a voz mais firme agora — vocês não estão sozinhos. Eu estou aqui. Sua mãe está aqui. E nós dois somos capazes de derrubar qualquer ameaça que tente tocar em vocês.
Olhei para Airys. Ela se recompôs, mesmo com os olhos ainda marejados. Tocou a cabeça de Theron, depois a de Orion, e sussurrou com um sorriso trêmulo:
— Isso mesmo, meus lobinhos. Vocês têm os dois seres mais perigosos desse continente ao lado de vocês. Não vamos deixar ninguém os levar de nós, estão seguros! — Airys declarou mais feroz, dava para ver a determinação cintilar em seus olhos com Rielly desperta rosnando ao final da frase.
"Essas crias são nossa matilha, Alfa. E quem tocar neles... morre." Fenrir completou, em um rugido imponente em meu peito, vibrando em seguida seus ronronar para acalmar nossos filhotes.

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