POV: JASPER
Assim que atravessamos os portões da alcateia, o silêncio deu lugar ao murmúrio de vozes e suspiros contidos. O povo nos seguiu com os olhos. Famintos por notícias. O cheiro de sangue fresco em nossas roupas, nossos rostos, nossos braços, atraiu mais atenção do que qualquer aviso formal. Lobos farejavam de longe, tentando entender quem éramos e o que carregávamos de volta.
Familiares começaram a se aproximar. Vi alguns correndo, os olhos brilhando de alívio ao encontrarem seus guerreiros vivos. Abraços apressados. Lágrimas de gratidão. Ao mesmo tempo, outros se ajoelhavam, chorando ao constatar que seus entes queridos não voltaram. A dor era crua. Real. Cada corpo trazido era carregado com respeito, envolvido em mantos escuros, alinhados para a despedida.
Um dos rituais mais antigos. Enterro digno. Com reconhecimento. Com honra. Pelas mãos do Alfa Supremo.
Mas eu não parei para acompanhar.
Segui direto para o hospital com a mulher ainda desacordada em meus braços.
— Jasper? O que faz aqui? — Airys indagou, parando ao lado da maca. Seu olhar subiu lentamente até encontrar o meu, analisando cada detalhe com atenção. — Você está ferido?
Arqueei uma sobrancelha e suspirei, ainda arfando leve, com o corpo tenso da última hora que vivi em modo de caça. Passei as mãos pelos cabelos, bagunçando ainda mais os fios úmidos de suor seco e sangue.
— Não. Mas trouxe alguém que precisa mais de atenção do que eu. — Falei com um meio sorriso, dando um passo para o lado.
O corpo dela ainda estava ali, imóvel na maca, os fios grudados na pele pálida, os lábios entreabertos, e o peito subindo em ritmo instável.
— Sua próxima paciente, doutora. — Acrescentei, ainda com aquele tom irônico e despreocupado, mesmo sabendo que Airys não deixaria passar nada despercebido.
Ela se aproximou com passos cautelosos. Farejou o ar instintivamente, e o cenho se franziu na hora. Os olhos dela apertaram, a expressão endureceu. Airys era doce por fora, mas seu faro não perdoava.
— Quem é ela? — Perguntou com a voz mais baixa, desconfiada, ainda sem me encarar. — De onde essa mulher veio?
— É uma daquelas histórias engraçadas... para ser contada durante umas boas doses de tequila. — Comentei, dando de ombros e piscando para Airys com um sorriso torto. Ainda dava para sentir o gosto do sangue seco na boca, mas tentei manter o tom leve. Do meu jeito.
Me virei para a maca. O corpo desacordado de Savanna parecia menor ali, estendido sob os lençóis brancos. Mas não havia nada de frágil nela. Mesmo inconsciente, havia tensão nos músculos, o maxilar travado, as mãos fechadas como se ainda estivesse lutando, mesmo nos sonhos.
Arfei, sentindo aquele cheiro cítrico insistente subir mais uma vez pelas narinas. Merda. Eu nem sabia se era um bom sinal ou uma maldição.
— Notei feridas internas... profundas. — Falei, a voz mais baixa agora. Passei a mão pela barba com força. — Acredito que ela tenha sofrido agressões mais íntimas... — Travei o maxilar, desviando os olhos por um segundo. — Será que você pode verificar isso?
Airys não respondeu de imediato.
Em vez disso, ela se aproximou e colocou a mão no meu ombro. O toque dela foi firme. Calmo. Mas havia peso ali. Peso de quem entendia mais do que eu dizia em voz alta. Virei o rosto para ela.
— Se é importante para você, Jasper... — Ela disse em tom baixo, mas direto. Seus olhos estavam atentos, empáticos. — Não se preocupe. Eu vou cuidar bem dela.
Suspirei, aliviado por um segundo. Mas antes que pudesse me afastar, ela continuou, o tom mudou. Ficou mais firme.
— Mas preciso saber... — Ela ergueu o queixo, os olhos mais sérios. — Essa Loba representa algum perigo para a alcateia? Pros meus filhos? Para mim?

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