POV: DAIMON
— Podem realizar o Solstício e... — A Irmã cega começou, a voz serena, mas carregada de peso.
— Não! — A outra a cortou num rompante brusco, o tom grave e alarmado. — Isso está fora de cogitação! Não sabemos o impacto real que isso pode causar. Pode ser catastrófico!
Franzi o cenho, o rosnado escapando com brutalidade pela garganta enquanto o ar ao redor se tornava mais denso.
— Deixe-a falar. — Ordenei em um tom gélido, ríspido, impositivo. Minha voz reverberou pelo ambiente poderoso e imponente. As duas engoliram seco.
Senti o cheiro da hesitação, da incerteza. O olhar da anciã vacilou. Mas foi o cheiro... o cheiro de medo que me trouxe para mais perto do limite.
— Talvez haja uma forma de se libertar da maldição sem entregar a criança consagrada. — A irmã cega falou, o tom sereno demais para a gravidade de suas palavras. Ela deslizou o dedo pela borda da xícara, como se tocasse o fio da própria sentença. — Mas... nunca foi testada. E o preço é altíssimo. Exige um sacrifício.
O ar ficou mais denso. Minhas narinas inflaram. O som abafado da porcelana contra a mesa se misturava à pulsação no meu ouvido.
— Que tipo de sacrifício? — Airys interveio, sua voz carregada de angústia. Ela se inclinou levemente à frente, os olhos implorando por algo que não destruísse o que havíamos construído.
Inclinei a cabeça de lado, observando sua postura. Meu olhar percorreu seu corpo, mas o foco estava em seu cheiro. Inalei fundo. O aroma que exalava da pele dela estava mais instável do que nunca. Confusão, medo, amor... tudo misturado num caos perfumado que só ela podia carregar. E que só eu reconhecia.
“Maldita Deusa, deveríamos matá-la.” Bufou Fenrir, sua voz rasgando em minha mente com um timbre carregado de ódio. “Já me arrancou as memórias, agora quer minha prole? O que mais Selene pretende tomar de mim?”
Senti suas garras arranhando por dentro da minha pele, de forma inquieta, impaciente, ameaçadora. Fenrir rosnava baixo, o som reverberando em meus ossos, como se cada célula gritasse por guerra. Suas orelhas lupinas se erguiam dentro de mim, captando cada vibração do ambiente. O lobo estava em ponto de ruptura, e eu lutava para mantê-lo contido.
Inclinei a cabeça lentamente, rangendo os dentes. Pela primeira vez, Fenrir não estava apenas furioso. Ele estava dilacerado por dentro. Aquela emoção crua que se infiltrava em nós... era mais do que revolta. Era perda. Era desespero. E essa porra de sensação... doía.
O som abafado de uivos começou a vibrar em meu peito, graves e densos, quase como grunhidos angustiados, inquietos, selvagens. Meus olhos se estreitaram, o tom terroso escurecendo, sendo consumido por um vermelho sangrento que pulsava conforme a pressão do lobo aumentava.
Airys notou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A LUNA HUMANA VENDIDA AO ALFA SUPREMO