POV: SAVANNA
Minha visão ainda estava turva, os olhos pesados. Piscava tentando entender onde estava. Havia adormecido de novo? Meu corpo doía inteiro, como se cada célula estivesse sendo esmagada. As feridas ainda ardiam, cobrando o preço da minha sobrevivência.
O som repetitivo e irritante de alguém mastigando me tirou do torpor. Virei o rosto com esforço e dei de cara com ele. Jasper.
Estava largado numa cadeira ao lado, pernas esticadas sobre a borda da minha maca, segurando um potinho de gelatina. A colher raspava o fundo como se aquilo fosse o ápice da diversão do dia. Seus olhos cor de amêndoa me fitaram com naturalidade, como se fosse perfeitamente normal invadir meu espaço assim.
— Isto não era para mim? — murmurei, a voz rouca, mais irritada do que gostaria de admitir.
Com esforço, me movi, empurrando o corpo dolorido e me apoiando com o braço bom para me sentar. Arfei ao sentir a costela latejar.
“Que ousado... está bem à vontade o cãozinho metido.” rosnou minha loba, erguendo as orelhas e balançando o rabo com inquietação. “Quer que eu arranhe a cara dele?”
— Uau, bom dia para você também, princesa mal-humorada. — Ele sorriu de canto, lambendo a colher como se não estivesse nem aí para a minha expressão assassina.
— Então, além de sequestrar lobas, você também rouba a comida delas? — Arqueei uma sobrancelha, sustentando o olhar dele com firmeza, mantendo o tom firme e ácido. O sorriso dele ainda estava ali, irritantemente tranquilo.
Ele girou a colher entre os dedos e me analisou devagar, sem pressa. O olhar desceu e subiu como se quisesse me provocar, e conseguiu.
— O que posso dizer? — murmurou com aquele tom baixo e irritantemente divertido. — Sou um lobo terrível, impiedoso, assustador.
Piscou descaradamente.
— E, para sua informação, estou te poupando. A sobremesa estava horrível. A textura parecia de gosma velha.
“Mentiroso, lambeu até o fundo do pote.” retrucou minha loba com um rosnado baixo.
Suspirei, arqueando a sobrancelha mais alto. A raiva me aquecia por dentro, mas, no fundo, alguma parte do meu peito estremecia com a leveza que ele carregava, mesmo que eu negasse com todas as forças.
— Disse o homem que raspou o pote. — Rosnei, revirando os olhos com desgosto. O cheiro da comida na bandeja próxima me fez salivar. Meu estômago roncou alto no mesmo instante, como se traísse minha pose de superioridade.
O silêncio foi imediato. Meu rosto esquentou.
“É... vamos fingir que esse rubor nas bochechas é por causa da fome.” rosnou minha loba, arrastando a voz como quem já perdeu a paciência. “E não pela forma descarada como esse lobo à nossa frente te deixa instável.”
— Cala a boca. — Respondi por dentro, bufando e desviando o olhar de Jasper.
Ele apoiou os braços nas laterais da poltrona e se inclinou devagar para frente, sem desgrudar os olhos dos meus.
— Deveria comer, para se recuperar. — Jasper inclinou a cabeça de lado, o olhar atento demais, e se levantou com aquela lentidão preguiçosa de quem sabe exatamente o efeito que causa. Pegou a bandeja e a aproximou de mim. Hesitei. Meu corpo ainda latejava de dor, mas o cheiro da comida invadiu minhas narinas e fez meu estômago se contorcer.
Ele percebeu. Claro que percebeu.

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