POV: SAVANNA
Ele deu uma lambida lenta na própria casquinha e sorriu de canto. O sorriso sumiu devagar, dando lugar a algo mais sério, quase intenso.
— Eu disse que você estava me olhando diferente. — provocou, com aquele tom arrastado que fazia minha pele arrepiar.
Depois, inclinou-se um pouco, a voz mais baixa, grave, ressoando com intensidade suficiente para provocar um leve tremor na base da minha coluna.
— Seu cheiro... — murmurou — me lembra chocolate belga, com flocos gelados... mas com notas doces. Quentes. Aquelas que não se apagam da memória.
O encarei, surpresa pela mudança repentina em seu comportamento, mas Jasper manteve o olhar à frente, sem ousar cruzar os olhos comigo. Apenas continuou andando em silêncio. Suspirei e o segui, observando o céu cada vez mais escuro acima de nós. A nevasca havia se acalmado, permitindo que o frio cortante desse lugar ao vento leve e gelado da noite.
Subimos um prédio alto, ainda em reforma. O cheiro de concreto, poeira e madeira crua se misturava ao aroma de tinta fresca. Minhas botas ecoavam nos degraus metálicos da escada interna até que, por fim, chegamos ao terraço. O local era amplo, vazio, com poucos equipamentos e estruturas espalhadas, mas dali... dali se via tudo.
Jasper parou junto ao parapeito de concreto e se inclinou ligeiramente, apoiando os antebraços ali. O vento bagunçava seus cabelos escuros, e por um instante, ele ficou em silêncio, apenas observando.
Me aproximei devagar, ainda com o sorvete na mão, e parei ao seu lado. Segui seu olhar... e arfei baixo.
Daquele ponto, era possível enxergar a extensão da alcateia por completo. As luzes quentes dos postes iluminavam as ruas largas, os telhados nevados e os pequenos comércios ainda abertos. Lupinos caminhavam tranquilos, casais conversavam em bancos de praças, algumas crianças ainda brincavam no parque. Era... bonito. Vivo. Diferente de tudo que eu conhecia.
— É uma alcateia encantadora. — murmurei, mordendo mais um pedaço da casquinha e sentindo o contraste do doce gelado com o calor que começava a se formar em meu peito.
Jasper não respondeu de imediato. Só depois de alguns segundos ele falou, sem tirar os olhos do horizonte:
— É o único lugar onde me senti... em paz. Mesmo com toda a bagunça.
Virei o rosto na direção dele. Suas feições estavam mais relaxadas, menos provocativas. A expressão era... honesta.
— Estranho ouvir isso vindo de você. — provoquei, arqueando uma sobrancelha. — Jurava que você só encontrava paz em confusão e sarcasmo.
Ele soltou uma risada baixa, sem olhar para mim.
— Não sempre foi assim. — Ele suspirou, levando outra colherada de sorvete à boca como se falasse de algo banal, quando claramente não era. Observei seu maxilar contrair levemente e franzi o cenho, intrigada. Dei mais um passo em sua direção, tentando entender a mudança súbita no tom de voz.
— O pai do Daimon não era um líder como o atual Alfa é. — Continuou, sem me encarar. — Ele perdeu o controle da própria fera... Massacrou a própria Luna. Esquartejou alguns dos que juraram lealdade. Não tinha estrutura mental para comandar. Era impulsivo, desequilibrado... perigoso. E por pouco, não arrastou todos com ele.
Senti meu estômago revirar. Meu corpo enrijeceu, a mão segurando o sorvete vacilou. Arfei baixo.

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