POV: JASPER
Seus olhos estavam fixos no horizonte escuro, mas o brilho neles revelava memórias que pesavam.
Ela respirou fundo e engoliu em seco, o maxilar contraído como se lutasse para não deixar as emoções transbordarem.
— Não tivemos ninguém para nos proteger. Precisávamos sobreviver.
Seu tom carregava uma dureza crua, e isso me fez arquear uma sobrancelha, atento ao que vinha por trás das palavras.
— Precisávamos? No plural? — Me aproximei sem pressa, parando ao lado dela, respeitando a tensão que ainda pairava entre nós.
Savanna hesitou. Mordeu o lábio inferior, e seu peito subiu lentamente antes que respondesse.
— Meus irmãos e eu. — Disse, quase sem voz. — Desde que nossa mãe... partiu, sempre foi eu por eles. E eles por mim.
A forma como falou “partiu” me fez cerrar a mandíbula, mas não interrompi.
Ela desviou o olhar e fungou, claramente querendo disfarçar o arfar mais pesado. O vento gelado moveu uma mecha dos seus cabelos e, sem pensar, levantei a mão e coloquei atrás da orelha. Ela congelou.
"Agora você a quebrou," murmurou meu lobo, atento, porém calmo. "Ou vai conseguir entrar, ou ela vai te morder a mão."
— De qual alcateia vocês eram? — Perguntei, mantendo o tom baixo, íntimo, sem invadir. Apenas deixando o caminho aberto, caso ela quisesse trilhar.
Ela não respondeu de imediato. Apenas ficou ali, imóvel, os dedos apertando a borda da casquinha de sorvete já esquecida sobre o muro. Seus ombros tremiam discretamente. Não era frio. Era o peso.
"Essa loba está em pedaços, Jasper... E não quer que ninguém note."
— De nenhuma. — Savanna respondeu, me lançando um olhar de canto com o cenho franzido. — Sei o que está pensando... Desgarrados? Exilados? — Ela bufou, apertando os lábios. — Não fomos nenhum, nem outro.
Seu tom era defensivo, mas havia um cansaço em suas palavras. Como se já tivesse tido que repetir essa explicação vezes demais.
— Não há julgamentos aqui, Bravinha. — Afirmei com firmeza e me virei devagar, encostando as costas no parapeito do terraço. Cruzei os braços e a observei em silêncio por um instante. — Você está certa... há algo que quero de você.
Seus olhos se estreitaram, seu corpo imediatamente reagindo com tensão. Ela ergueu o queixo, se armando por dentro, mas não falou nada. Esperei o momento certo antes de continuar:
— Mas não é te usar.
Savanna arqueou uma sobrancelha com desconfiança e se apoiou em um dos cotovelos no muro, virando um pouco o corpo em minha direção. Apoiou a cabeça na mão com leveza, e seus fios escuros deslizaram pelo rosto, emoldurando os traços delicados intensos. Por um segundo, ela parecia menos feroz... mais real.

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