POV: AIRYS
— Que conveniente. — Soltei, a voz seca.
“Inclusive, ela já roubou o que pôde de você.” Rielly sibilou com escárnio, a orelha interna da loba se eriçando com nojo. “Roupa, brinquedo, posição, pai, marido. Agora vem rastejar? Que peça.”
Meus batimentos ecoavam como tambores. Os olhos de Eloy não ousavam me encarar.
— Você sempre me odiou. — Falei baixo, mas firme, sentindo o calor subir pelo corpo.
— Eu não te odiei... — Ela gemeu, sem levantar o rosto. — Eu só...
— Só o quê? Quis o que era meu? — Estreitei os olhos. — Você teve uma vida inteira para se redimir. Mas preferiu me trair. Me jogar para morte. E agora quer o quê? Compaixão?
“O mesmo que ela não teve quando nos jogou nas águas.” Rielly girou as patas internas, impaciente. “Podemos arrancar a língua dela depois?”
O corpo de Eloy estremecia. Suas mãos estavam espalmadas contra o chão, os dedos trêmulos, a respiração arfada. Ela tremia, não de frio, mas de medo. O cheiro ácido da culpa escorria por sua pele.
— Eu... fui obrigada... — Ela tentou de novo, a voz falha.
— Você foi egoísta. — Disparei, fria. — Foi cruel. Fez sua escolha.
Daimon se aproximou em silêncio, sua presença me envolvendo por completo, o toque firme de seus dedos roçando minha cintura, um aviso para conter meu impulso. Arfei com o gesto, mas não recuei. A tensão ainda dançava sob minha pele.
Se depender de mim, essa conversa só está começando.
— Quer perdão? — Repeti, sem qualquer traço de emoção na voz. — Perdão pelo que exatamente, Eloy? Por ter me jogado da cachoeira? Por ter se deitado com meu marido? Ou por ter feito questão de me destruir desde que éramos pequenas? Estou apenas tentando entender qual dos golpes você quer que eu finja esquecer.
Ela engoliu seco, os ombros tensos, as mãos espalmadas no chão em sinal de submissão. O corpo tremia. O cheiro de medo se espalhava pelo ar, denso, misturado ao suor que escorria pelas têmporas.
— Por favor, Airys... Não fale assim... — A voz dela falhou num soluço contido, ergueu a cabeça e me encarou com os olhos vermelhos. — A minha mãe envenenava minha cabeça contra você. Dizia que eu nunca seria como você..., Mas, no fundo, eu sempre admirei você. Sempre. É minha irmã mais velha...
O tom de voz forçado, dramático, me causou náusea.
Não resisti. Ri. Um riso curto, seco, zombeteiro. Cruel.
Ela me olhou confusa, o rosto franzido. Os olhos buscavam alguma reação humana em mim. Alguma empatia. Não encontrou.
Daimon, calado ao meu lado, roçava a ponta de suas garras contra o dorso da minha mão em movimentos circulares, lentos, calculados. Era o único toque que me mantinha longe de explodir. Meu peito subia e descia com força, cada respiração mais quente que a anterior. Minhas narinas vibravam.

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