POV: AIRYS
Daimon rosnou em silêncio. Seu maxilar tenso, os ombros firmes e a energia densa vibrava em cada fibra de seus músculos esculpidos.
Eloy, ainda de joelhos, soluçava com o corpo tremendo. Os olhos arregalados, as mãos suadas segurando a minha como se aquilo fosse salvar sua vida.
— Por favor... — murmurou com a voz falha. — Por favor... eu ainda sou sua irmã...
— Preciso lidar com isto... sozinha. — sussurrei, virando o rosto na direção de Daimon, sem desviar.
Os olhos dele escureceram em tons terrosos e sangue vivo. As pupilas dilataram com lentidão, e, por trás delas, vi Fenrir, inquieto, impaciente, no limite. A presença do lobo estava tão próxima que meu corpo reagiu de imediato: um arrepio subiu pela minha coluna, fazendo meus músculos enrijecerem por reflexo.
Mesmo assim, sustentei o olhar. Precisava que ele visse firmeza na minha decisão, que confiasse. E ele entendeu.
Daimon se ergueu, dominando o ambiente com sua presença imponente. Cada movimento dele parecia conter força crua, tensão e um tipo de respeito silencioso que me fez prender o ar por um segundo. Ele se inclinou e pressionou os lábios em minha testa, demoradamente. Não havia pressa. Era uma despedida simbólica, um selo.
O toque dele me envolveu, me arrepiando outra vez. Sentia o calor de sua pele contrastar com a minha, e quando deslizou o nariz pela minha bochecha até o ouvido, todo meu corpo reagiu com um suspiro contido, lento e pesado.
— Não se esqueça, pequena... — sussurrou, com a voz baixa e carregada. — Mantenha sua lealdade em quem realmente a merece.
Ele mordeu de leve a ponta da minha orelha antes de se afastar. Nossos olhos se encontraram uma última vez, e a intensidade daquele olhar parecia uma promessa muda: ele não estava longe. Só à espreita.
Ao passar por Eloy, seu olhar mudou. O brilho vermelho em seus olhos intensificou, a áurea de Alfa Lycan se expandiu num impulso seco, e o peso daquilo preencheu o ambiente de forma brutal. Eloy grunhiu, recuando por instinto, apavorada. Seu corpo se curvou de leve, os ombros tensos, os olhos arregalados em pânico. Ele sequer precisou dizer uma palavra.
Daimon se virou e saiu em silêncio, acompanhado pelos guardas.
Observei as costas largas e bem definidas de Daimon desaparecerem pela porta. Mesmo longe, o cheiro dele ainda pairava no ar, marcante e reconfortante, ativando cada célula do meu corpo em alerta e conforto ao mesmo tempo.
— “É claro que estaria. Ele é nosso companheiro. Nosso protetor.” — Rielly disse com aquele tom orgulhoso. — “Nosso macho.”
Arqueei uma sobrancelha com um leve sorriso de canto, apenas por dentro. Virei o rosto lentamente e encarei Eloy, que me observava com a expressão perplexa, os olhos arregalados como se não reconhecesse a mulher diante dela.
— Nossa... — murmurou, com a voz falha. — Você realmente domou o monstro.
— Domar não é a palavra certa. — respondi fria, meu olhar afiado, a tensão percorrendo minha espinha, fazendo cada músculo do meu corpo se manter firme e alerta. — O que você realmente veio fazer aqui, Eloy?
O rosnado escapou pela minha garganta sem esforço. Meus olhos se estreitaram e a presença de Rielly se manifestou, minha loba à flor da pele, como uma sombra viva em mim.

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