POV: DAIMON
— O que é isto? — Airys exclamou, perplexa, ao ver os portões escancarados, dezenas de lupinos feridos sendo carregados e arrastados para dentro da fortaleza. O cheiro de sangue fresco e queimado enchia o ar, misturado ao fedor de medo e desespero. — São vítimas?
— Refugiados da guerra. — Minha voz saiu em um rosnado grave, carregado de desprezo. Observei cada um deles com atenção predatória, farejando como se pudesse arrancar a verdade do ar. — Raiker, o desgraçado covarde, atacou os civis de propósito para obrigá-los a buscar abrigo na nossa alcateia.
— Com qual intuito? — Ela perguntou, os olhos semicerrados, o cenho franzido.
— Infiltrar mais inimigos em Tal Dorei. — Cuspi as palavras com ódio, deixando a áurea Lycan se expandir como uma onda de poder e fúria. O chão pareceu tremer sob meus pés, e os lobos próximos baixaram as cabeças, gemendo com a pressão sufocante que eu exalava. — Ele sabe que o Solstício está próximo.
“Aquele macho de partes pequenas será reduzido a pó depois que eu moer os ossos dele.” Rugiu Fenrir dentro de mim, fazendo o lado direito do meu corpo estremecer com a força do vínculo. O vermelho sangue preencheu meu olho esquerdo, pulsando. “Alfa, há filhotes no meio... Precisamos verificar todos.”
— Daimon? — A voz de Airys cortou a tensão como uma lâmina sutil, mas firme. Ela tocou meu braço, os dedos deslizando com leveza até me apertar suavemente. — Alivie seu poder... Eles estão feridos, assustados... Não vão resistir à sua pressão.
Respirei fundo, mantendo os olhos sobre os corpos que atravessavam os portões. Feridos. Rasgados. Alguns com os ossos expostos, outros desacordados, arrastados por guerreiros exaustos. O cheiro de sangue seco, urina e dor se acumulava no ar.
Os gritos abafados de crianças pequenas e fêmeas feridas me atingiram com uma força inesperada.
Senti as garras se esticando nos meus dedos, involuntárias, e o calor da fúria crescendo no meu peito. Raiker iria pagar por cada gota de sangue que vi diante de mim. Mas agora não era o momento de deixar Fenrir tomar o controle.
Dei um passo à frente e puxei Airys pela cintura com firmeza, colando nossos corpos. Pressionei o nariz contra seus fios platinados, inalando fundo o cheiro doce e quente que escapava da sua pele.
O único aroma capaz de acalmar a besta dentro de mim.
— Muito melhor, pequena. — Sussurrei contra seu ouvido, sentindo o arrepio que percorreu sua espinha até o quadril.
"Ela tem razão, nem todos ali devem ser culpados." Bufou Fenrir dentro de mim, sua voz áspera vibrando nos meus ossos, enquanto o focinho dele parecia avançar na direção da nossa pequena audaciosa. "É golpe baixo usar esses artifícios aromáticos para te distrair. Esse cheiro doce dela está me deixando selvagem."
Meus olhos varreram os refugiados diante do portão. Sangue, medo e desespero exalavam como uma névoa sufocante. Vi lobos feridos sendo carregados, outros com membros amputados, crianças agarradas às mães, algumas quase desacordadas. Cada gemido ecoava como uma ofensa direta ao meu instinto.
— O que iremos fazer? — Jasper perguntou, tenso, avaliando os corpos ensanguentados que aguardavam minha permissão para entrar. — A maioria mal consegue ficar em pé, mas não sabemos quem veio para morrer ou quem veio para espiar.

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