POV: DAIMON
Sem pensar, puxei-a para mim. Mergulhei o rosto em seus fios e aspirei com força. Queria absorver até a alma dela. Cada partícula do seu cheiro parecia se prender às minhas células, acalmando cada parte da fera em ebulição.
A escuridão que havia tomado minha visão começou a ceder. Tudo antes distorcido começou a ganhar forma. O peito ainda subia e descia de maneira descontrolada, mas a sanidade voltava lentamente.
Airys recuou um pouco, mantendo as mãos próximas do meu rosto, como se não quisesse romper o contato por completo. Ergueu os olhos para mim, arregalados, mas sem medo.
Apenas presença.
Presença pura.
"Ela não recua." Fenrir rosnou num tom mais baixo, quase... contido.
— Daimon... O que... — Airys sussurrou, a voz trêmula, os olhos se movendo em volta, absorvendo o cenário.
Segui seu olhar. Meus filhos estavam encolhidos com alguns pacientes, escondidos sob uma maca. Vi Orion com o corpo curvado protegendo Theron e Alec, enquanto as crianças e os enfermos tremiam. As enfermeiras os cobriam com o próprio corpo, como se estivessem tentando criar uma barreira contra mim. Os soldados estavam em volta, armas e garras prontas, os olhos hesitantes, não sabiam se deviam me conter ou recuar.
— Você está bem? — Airys me olhou de novo, o tom firme apesar do medo nos arredores. — O que foi isso?
“Nossos filhos nos temem.” A voz de Fenrir veio baixa, quase um murmúrio na minha mente, junto a um grunhido carregado de algo que ele raramente demonstrava: culpa. Suas orelhas peludas estavam baixas, e senti até o rabo dele se recolher. “Não podemos nos aproximar. Não somos confiáveis...”
— Daimon? — Airys sussurrou de novo. Ela deu mais um passo à frente, subindo na ponta dos pés para alcançar meu rosto. Seus dedos delicados tocaram meu maxilar, me forçando a inclinar a cabeça e encarar seus olhos dourados. — Está tudo bem... estou com você, e...
— Se afaste, Coelhinha! — Rosnei, a voz carregada de um peso bruto e ameaçador. Segurei seus ombros com firmeza, afastando-a com um movimento ríspido antes que ela pudesse continuar.
Virei as costas, mas meu olhar cruzou com o dos pequenos. Ali, ao lado da maca, Orion, Theron e Alec estavam encolhidos, o medo estampado no rosto. Eles tremiam como todos os outros filhotes que se escondiam ao redor.
Um nó ardente apertou meu peito. As garras ainda estavam projetadas, meu corpo quente e em alerta, mas me forcei a pronunciar, com a voz rouca:
— Eu... sinto muito, pequenos.
As palavras saíram ásperas, quase inaudíveis, mas a dor nelas era real. Cerrei os punhos e saí dali, ignorando o chamado de Airys, que gritou meu nome às minhas costas.

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