POV: AIRYS
— Mamãe, por que o papai estava daquele jeito? — Theron se aproximou devagar, os ombros tremendo, a voz quase engolida pelo medo. — Ele estava... diferente.
— Parecia um monstro cruel... — Alec sussurrou, o soluço cortando a frase no meio. Seus olhos estavam cheios de lágrimas presas, a respiração curta. — Não parecia o meu papai.
— O cheiro... — Orion parou bem à minha frente, os olhos arregalados e brilhantes, o nariz com um filete de sangue. Ele passou os dedos pelo canto e ficou olhando para a ponta, confuso e assustado. — Não era o cheiro do papai. Era... maldoso. Queimava. Ardia por dentro. O que está acontecendo com ele?
O silêncio ao redor me pesou no peito. Todos na enfermaria nos olhavam, esperando minha resposta. Enfermeiras, soldados, pacientes. Até o ar parecia ter parado, e isso só fez o nó na minha garganta apertar ainda mais.
“Eles têm razão. O Supremo está afundando.” Rielly rosnou em minha mente, a voz firme, mas com uma sombra de preocupação. “E se ele perder a última réstia de controle, não vai sobrar ninguém para contar a história.”
— Não se preocupem. — Falei, a voz firme, mas com o coração latejando em angústia. — O Supremo está no auge da guerra. É natural que sua fera fique mais hostil por causa do poder ancestral. — Menti.
As crianças me olhavam sem piscar, como se pudessem enxergar além das palavras. E os refugiados ao redor, silenciosos, aguardavam minha explicação como se isso fosse suficiente para afastar o medo.
Mas como eu poderia dizer a eles que estávamos perdendo Daimon?
Como eu poderia contar aos meus filhos que o homem que os protegia com a própria vida estava, pouco a pouco, sendo engolido pela maldição que o transformava em algo além de um lobo?
“Não podemos permitir isso.” Rielly vibrou na minha mente, seu tom carregado de firmeza e urgência. “Nós o libertaremos antes que seja tarde. Não vou perder Fenrir. Não vou perder a única besta que amo.”
— Savanna. — Chamei seu nome ao vê-la passar, orientando uma enfermeira sobre o paciente recém-operado. Ela parou abruptamente, surpresa, os olhos verdes fixos em mim. Claramente, não tinha visto nada do que acontecera antes. — Se quer fazer parte desta alcateia, vai precisar provar sua lealdade.
— Estou disposta a isso, Luna. — Respondeu sem hesitar, fazendo uma reverência sutil, porém respeitosa. — Do que precisa?
— Cuide dos pacientes na minha ausência. — Ergui o queixo em uma postura altiva e clara. — Os guardas continuarão a acompanhar seus passos. Se ousar tentar fugir, eu mesma vou te caçar e farei de você um exemplo.
Rosnei com mais força, deixando que o poder da minha loba transbordasse, a pressão no ambiente foi quase palpável. Vi os pelos dos braços de Savanna se arrepiarem, o corpo dela tremeu por um segundo, e seus olhos revelaram que a ameaça tinha sido absorvida por completo.
— Eu... não vou decepcioná-la. — Ela respondeu com a voz um pouco mais baixa, a postura rígida como se fosse um soldado diante de uma ordem final.
“Até eu fiquei com medo de você.” Rielly vibrou em minha mente, rosnando com aprovação.
— Volto em breve. — Falei seca.

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