POV: AIRYS
O chão sob meus pés parecia vibrar com a expectativa. A raiva me alimentava, pulsando viva nas veias. Minha loba se contorcia por dentro, inquieta, impaciente.
— Airys? — Jasper chamou atrás de mim.
Parei. O corpo tenso. A mandíbula travada. Não me virei.
— Está errada. — continuou, a voz menos sarcástica, mais firme. — Neste momento... o que você mais precisa é de um ombro amigo.
Senti a respiração se prender no peito por um segundo.
Ele avançou a passos largos, parando ao meu lado. Seu ombro bateu no meu, firme, como um lembrete de que ele ainda estava ali, mesmo que discordasse de tudo.
— E, para sua sorte... — falou mais baixo, com um sorriso de canto. — Eu sou um amigo sensacional. E grudento pra caralho.
— Que bom... Achei que teria que mandá-lo direto pra prisão e tortura. — Provoquei, mordendo a parte interna da bochecha enquanto atravessávamos a cidade em direção à praça central.
Minhas mãos estavam fechadas em punhos, os dedos tremendo. A cada passo, sentia o peso da decisão pulsar nos músculos, esquentando a pele, acelerando minha respiração.
— Credo... soube que lá não tem tequila. Prefiro a morte à abstinência alcoólica. — Jasper rebateu com aquele tom debochado de sempre, um sorriso de canto mal escondido nos lábios.
Mas eu sabia. Cada palavra dele era uma tentativa, patética, até, de aliviar o que estava por vir.
Paramos na praça central.
Os prisioneiros estavam ajoelhados sobre o palco de madeira, acorrentados com prata nas mãos e tornozelos. Seus corpos estavam cobertos de feridas, cortes profundos, hematomas abertos, ossos expostos em alguns pontos. As torturas de Simon e dos meus soldados haviam sido meticulosas. Calculadas. Merecidas.
A praça estava lotada. Os Lupinos da alcateia se acumulavam à frente, ombro a ombro, silenciosos. O olhar de cada um deles estava fixo em mim. Senti o peso da expectativa, da raiva contida, do luto ainda quente em seus rostos.
Alguns traziam os olhos marejados. Outros, cerravam os punhos. Havia temor. Mas também havia sede de justiça. Eles tinham perdido família. Sangrado. Sobrevivido.
Eles queriam ver sangue.
"Mostre a eles quem manda agora." A voz da Rielly era um rosnado lento. "Sem hesitação. Sem piedade."
Subi os degraus sem desviar o olhar. Passei por entre os três reféns, sentindo o cheiro de urina, sangue e suor misturado ao medo.
Foi então que um deles se arrastou, cambaleando sobre os joelhos, e se jogou aos meus pés. As correntes tilintaram alto quando ele agarrou minha roupa com força, os dedos trêmulos.
— Por favor... me perdoa... — a voz falhou, arranhando a garganta seca. — Eu fui obrigado...
Olhei para baixo, sem me mover, e arqueei uma sobrancelha. A mão suja tocava minha perna. O toque era fraco, patético. O rosto inchado implorava, os olhos arregalados buscavam piedade.
Inclinei o rosto lentamente, sem tirar o pé do lugar.
— Airys, por favor... não faça isso... você não pode me executar! — Ela choramingou, a voz falhando em meio aos prantos desesperados. O rosto estava coberto de sangue seco, sujeira e vergonha. — Eu sou sua irmã! Vai assassinar sua própria irmã?
Abaixei o corpo até ela, mantendo os olhos fixos nos dela.

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