POV: SAVANNA
Me transformei e avancei para fora da alcateia, correndo com o coração acelerado. O faro aguçado captou cada partícula de cheiro no ar. Fechei os olhos por um instante, sentindo aquele elo apertar, como se uma coleira invisível se prendesse ao meu pescoço, sufocando e queimando.
O território que alcancei estava destruído. Casas reduzidas a escombros, portas arrancadas, sangue seco manchando as paredes e o chão. O ar carregava apenas o odor podre da morte, denso, impossível de ignorar.
Um rugido baixo e irritado ecoou à distância, abafado pelas ruínas. Ergui as orelhas e segui farejando, cada passo me levando mais fundo até uma residência caindo aos pedaços.
"Ele está aqui..." minha loba rosnou em tom baixo, o pelo do dorso eriçando. O rabo desceu, o corpo tremeu. "Podemos dar meia volta e sumir antes que ele nos sinta."
— Não, não vamos mais fugir do nosso destino. — Rosnei, firme, atravessando a entrada. Dei dois passos e congelei ao ouvir aquela voz fria, cortante, ecoando no breu.
— Ora... não é que a cadela sempre volta para o verdadeiro dono? — O tom carregado de escárnio me fez cerrar os punhos.
Na penumbra, seus olhos vermelhos se acenderam como brasas, fixos em mim. Raiker estava afundado em uma poltrona rasgada, o corpo coberto de hematomas profundos, cada marca contornando músculos ainda tensos. A mão pressionava o abdômen rasgado, o sangue escurecido marcando a pele. Analisei cada detalhe, sem baixar a guarda.
"Não hesite. Se mostrar medo, ele vai sentir." minha loba rosnou, tensa, mas com um lampejo de desafio.
— Você está péssimo. — Falei, fechando os punhos, sentindo meus ombros se enrijecerem. — É surpreendente estar vivo nessas condições.
— E você veio pessoalmente verificar se eu ainda respirava? — Raiker abriu um sorriso lento, exibindo as presas sujas de sangue. O gesto foi acompanhado por um movimento de cabeça para o lado. Segui seu olhar e meus olhos se arregalaram ao encontrar uma pilha de corpos recém-mortos.
— Estou ferido, não morto. E nem um pouco menos imponente. — A voz dele carregava ameaça, cada palavra pesada. — Se veio aqui pensando que poderia me atacar achando que estou fraco, saiba que...
— Não! — Cortei, a respiração acelerada. Um leve tremor percorreu minhas mãos, mas mantive o queixo erguido até encontrar seu rosto. — Eu vim porque senti que precisava de mim.
"Não abaixe a guarda, mas use isso a seu favor." minha loba sussurrou, tensa, mas com um brilho de desafio no olhar interno.
Raiker semicerrou o cenho, o olhar carregado de desconfiança enquanto me analisava com atenção calculada.
— Veio para cuidar de mim? — O tom dele soou frio, quase cortante, seguido por uma risada baixa e descrente. — Qual é, Savanna… sei que nunca nutriu nada real por mim. Além do elo, não temos mais nada. Consigo sentir daqui o cheiro do seu ódio… e do seu medo.
— É verdade que o odeio. — Engoli em seco, sentindo o ar pesar nos pulmões. — E também é verdade que o temo. — Respirei fundo e caminhei lentamente na direção dele, sentindo cada passo como um teste. — Mas não é a única coisa que sinto, Raiker.
"Se aproxime, mas não o subestime." minha loba murmurou, firme e levemente hostil. "Ele está ferido, mas não indefeso."
Parei diante dele e me ajoelhei aos seus pés, exatamente como sabia que ele gostava. Raiker adorava me ver submissa, oferecendo a falsa reverência que ele exigia como o maldito Supremo que sonhava ser.
Ergui o olhar lentamente, inclinando-me para a frente. Minha mão trêmula subiu até tocar a ferida aberta em seu abdômen. Antes que pudesse encostar, seus dedos se fecharam em torno do meu punho com força brutal. O estalo seco no osso fez um gemido escapar por entre meus dentes, que mordi com força para conter a reação.

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