POV: AIRYS
As garras afundaram mais uma vez e um gemido rouco escapou da minha garganta, mas não soltei. Minha testa colou na dele, o hálito quente e feroz me queimava a pele.
— Volta para mim… — implorei com a voz embargada, tremendo, quase sem forças. — Volta para nós…
Seu corpo inteiro tremia sem controle. Ele rugia contra meus lábios feridos, o hálito quente e denso batendo contra minha pele, enquanto suas presas ainda marcavam meu rosto. As irmãs celestes arfavam, exaustas, as vozes trêmulas no cântico do ritual de purificação, forçando o círculo a se manter de pé. Mesmo assim, Daimon se debatia de joelhos, selvagem, cada rugido reverberava no meu peito.
A fumaça negra começou a sair de sua pele, como se a própria maldição o estivesse queimando de dentro para fora. Seus contornos se distorciam, os olhos oscilavam entre fera e homem.
Colei minha testa na dele, ignorando o gosto de sangue e a dor latejante. Minha voz saiu falha, mas firme:
— Fica com a gente... com a sua família.
Senti a mão dele tremer no meu abdômen. As garras se retraíram só um pouco, mas o bastante para a dor rasgar minha carne em um frio que percorreu meu corpo inteiro, fazendo meus músculos tremerem sem controle.
Arfei, estremeci, mas não me afastei. Segurei sua nuca, puxando-o mais para mim. As lágrimas escorriam, quentes, se misturando ao sangue.
— Fica comigo... por favor... — minha voz quebrou em súplica. — Eu te amo demais, Daimon. Eu preciso de você aqui comigo.
Sua mão, finalmente, se afastou do meu abdômen. Eu a agarrei com força, mesmo trêmula, e a pressionei contra meu ventre ensanguentado.
— Eu preciso de você… nossos filhos precisam de você. — sussurrei, arfando, sentindo o calor de seu toque brutal sobre minha pele fria.
Ele estremeceu, e por um instante, os rugidos cessaram. O olhar selvagem oscilou, como se algo dentro dele reconhecesse o que estava tocando. Seus dedos monstruosos tremeram quando sentiu o pulsar baixo, frágil, mas ainda vivo dentro de mim.
“Ele está sentindo, Airys!” Rielly rosnou dentro de mim, feroz e quase desesperada. “Mostre a ele que a vida ainda existe, que não está tudo perdido!”
Daimon arfou, a respiração irregular, entrecortada pela dor e pela maldição que ainda o consumia. Sua voz saiu partida, quebrada entre fera e homem, como se rasgasse sua própria garganta:
— Meus… filhos?

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