POV: DAIMON
— Não... — minha voz rompeu em um rugido áspero, carregado de raiva e desespero. — Deusa... apareça! — gritei, e o uivo que saiu de mim ecoou tão alto e imponente que a montanha inteira pareceu estremecer sob meu poder. — Nenhum mortal é capaz de te matar... venha até o seu guerreiro, agora!
O silêncio que se seguiu foi devastador. O tempo simplesmente parou. A neve que caía congelou no ar, as gotas de chuva ficaram suspensas como se o mundo tivesse sido arrancado do movimento. Nada se mexia. Ninguém respirava.
Tudo que restava era o som da minha própria respiração descompassada, pesada, arfante. O coração martelava no peito como se fosse explodir. As mãos tremiam ao segurar o corpo dela, cobertas de sangue, o sangue dela.
O vermelho se espalhava rápido pelo chão, formando uma poça que não parava de aumentar. Cada gota que se juntava àquela mancha era um soco direto na minha alma.
“Olhe para o que está acontecendo, Alfa Supremo... sua fêmea está se esvaindo. Vai deixar que ela seja levada enquanto você implora a uma deusa covarde? Lute por ela, ou enterre sua dor com o mundo inteiro.” Fenrir urrou, tomado pela mesma paixão desesperada que me consumia.
Meu maxilar se contraiu, o corpo inteiro estremecendo com a mistura de fúria e medo. Arqueei as sobrancelhas, sentindo as lágrimas queimarem nos olhos, mas não cedi.
— Você não vai me ignorar, maldita! — gritei novamente, a voz reverberando como um trovão. — Se ousar virar as costas, eu arrasto sua eternidade para o inferno comigo!
Apertei Airys mais contra mim, arfando, o corpo dela tão frio que a dor me atravessava em cortes invisíveis. Minhas mãos tremeram, mas não a soltei.
— Ela não pode morrer... não assim... — minha voz falhou, rouca, carregada de desespero. Eu tremia, sim, eu, o Alfa Supremo temido por todos, tremia como um covarde diante da possibilidade de perder a mulher que me ensinou o que era amar. — Selene, não a leve!
A divindade surgiu, a aura mais pesada, cansada, mas ainda opressora. Ajoelhou-se ao lado de Airys e seus dedos deslizaram pelos fios dela com uma calma fria.
— Você a ama, Supremo? — perguntou, a voz profunda, gélida, cada palavra cortando como julgamento. Seus olhos prateados me atravessavam, como se buscassem arrancar minha alma. — O que sente por ela?
— Tudo! — respondi sem hesitar, arfando, os olhos marejados e a mandíbula cerrada. — Eu sinto tudo!
Meu peito arfava como se fosse rasgar de dentro para fora.
— Não posso viver sem a minha coelhinha... — minha voz se quebrou, e engoli em seco, segurando a cabeça de Airys contra meu peito, sentindo-a tão frágil. — Não importa o preço do pacto desta vez, me leve, me quebre, me destrua, mas a traga de volta!
“Finalmente, Alfa, largamos o orgulho e nos ajoelhamos por algo que vale tudo... pelo amor. Quer saber o que é verdadeira rendição? É esta.” Fenrir sussurrou feroz dentro de mim, carregado de uma dor idêntica à minha. “A Deusa pode levar minha alma, minha pele, meus ossos, tudo..., Mas tem que nos devolver nossas companheiras.”
— Uma simples humana... — a voz da Deusa soou baixa, mas firme, carregada de algo que eu não soube identificar. Seus olhos prateados caíram sobre o corpo pálido de Airys, sem batimentos, sem fôlego. — Uma consagrada conseguiu dar sentimentos a uma fera sem coração. — Pela primeira vez, Selene sorriu de forma genuína. — Não será necessário pagar nenhum preço.
— O quê? — minha voz ecoou carregada de incredulidade. A cabeça tombou de lado, os músculos da mandíbula tremendo. — O que quer dizer com isso?
Minha respiração falhou, pesada, arfante.
— Não irá salvá-la depois de tudo? — rosnei, a raiva e o desespero se misturando. — Depois de tudo que ela fez, de tudo que aceitou, não vai trazê-la de volta?

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