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A Redenção do Ogro romance Capítulo 54

Bernardo Thomson

Estou terminando de ler um relatório dos equipamentos novos que chegaram para ortopedia semana passada, quando o interfone tocou.

-Fala Melissa.

-Senhor, acabaram de marcar uma reunião para amanhã de manhã. O que faço com os pacientes que estão marcados?

-Que reunião?

-Iolanda disse que foi resolvida de última hora. Uma reunião convocada pelo Doutor Arthur com os acionistas.

O que?

Porque ele não me avisou antes?

Ele sempre avisa eu e Paulo antecipadamente. O que será que aconteceu?

Olho para o celular e não vejo nenhuma mensagem e nenhuma ligação dele e nem do Paulo.

-Iolanda disse qual é o assunto?

-Não, doutor... Só disse para eu organizar seus horários e te comunicar.

-Não faça nada Melissa. Antes vou procurar saber do que se trata.

-Sim Senhor!

Desliguei o interfone e suspirei. Como se eu não os conhecesse. Isso tem muito o dedo do meu pai...

Na verdade, tem a mão toda dele.

Já faz uma semana desde a festa do William. Eu tenho evitado as ligações dele e do William. Os meninos nem ligam mais, porque sabem que eu não vou atender. Quando precisam falar comigo, ou vem aqui ou me mandam mensagem.

Ligo para o Paulo e ele não me atende.

-Japonês de araque! Vocês estão armando pra mim!

Eu já disse que não quero falar com o William ainda. Nem com meu pai sobre o hospital. Ainda não... Por enquanto eu vou cozinhar eles em banho Maria. Deixar eles bem estressados…

Ainda tenho esperanças de que William desista de ficar no Brasil e volte para a Irlanda com sua família feliz. Eu não vou facilitar para eles. Meu pai pode tirar as ações do meu poder, mas o meu cargo ele não pode. Só quem pode é tio Armando e Arthur. Tio Armando já me disse que isso não vai acontecer... Então ninguém pode me obrigar a nada que eu não queira fazer…

Eu achei que nesta altura do campeonato ele já teria me deserdado e dado as ações para o Willian. Mas isso não aconteceu... E pra dizer a verdade. Nem eu entendi porque não aconteceu... Só pode ser minha mãe aguentando as minhas pontas. Ela sempre foi assim, tentando manter a paz na sua família nada unida.

Minha mãe deve sentir inveja da Tia Paula e Tia Eleonora. Tadinha dela…

Essa semana eu trabalhei dobrado para compensar a semana que não vim..

E nem reclamei... Não tenho muita coisa para fazer fora daqui. Então me dediquei integralmente ao hospital. Mas não recebi e nem atendi as diversas formas de comunicação que eles tentaram.

Agora esta reunião! Isso tem dedo do meu pai! Só pode…

Ligo para Arthur e ele não atende. Ligo de novo... E de novo... Até que ele desiste de me ignorar

-Fala praga…

-Que reunião é essa marcada para a primeira hora da manhã?

-Uma reunião para tratar sobre projetos novos.

-É que projeto seria? Eu cuido de todos os projetos do hospital.

-Por isso você foi chamado para reunião.

-É porque eu não fui consultado antes que havia um projeto novo?

-Porque esse projeto só chegou ao meu conhecimento ontem de tarde.

-Arthur, que merda é essa?

-Olha a boca! Você está falando com seu chefe!

-Chefe o caralho!!! Sempre que há projetos novos você consulta primeiramente eu e Paulo antes de marcar uma reunião com os outros acionistas.

-Dessa vez eu resolvi fazer diferente.

-É porque o japonês não me atende?

-Eu lá sei Bernardo? Estou no meu escritório em casa, numa teleconferência que atrapalhou e eu tive que dar uma pausa. Eu não sei onde Paulo está.

-Por acaso esse projeto tem a ver com o meu querido irmãozinho?

Ele suspira. Bingo! Eu sabia…

-Você tem que participar da reunião.

-Eu não vou..

-Para de ser cabeça dura. O projeto é mara…

Desligo o telefone na cara dele.

Foda-se!

Agora além do meu pai querer me manipular , os meus amigos vão querer fazer o mesmo?

Vai pra puta que pariu!

Eu não vou em reunião nenhuma e quero ver alguém me obrigar.

Pego o interfone e chamo Melissa.

-Sim Doutor.

-Não desmarque ninguém amanhã. Vou atender todo mundo. Para entrar na minha sala agora você precisa me avisar. A entrada não está liberada para ninguém Melissa, nem para Paulo e nem para Arthur. Os telefonemas também para o meu ramal vão ser vistoriados. Eu só vou atender quem eu quiser atender. Não importa que seja o caralho do Papa na minha porta. Você precisa me avisar.

-Sim Senhor!

Desligo o telefone e me encosto no encosto da cadeira.

Inferno!

*************

Camila Coelho

Estou pregando o último alfinete na gola do vestido da Duda, quando escuto alguém bater na porta do ateliê.

-Entra.

-Camila, há um rapaz na loja pedindo para falar com você.

-Carol, eu tenho que terminar essa costura agora... Não tem como atender agora.

-Ele disse que não é um cliente.

Que é uma conversa particular.

-Qual o nome do rapaz?

-William Thomson

O que?

-Acho um pouco tarde para isso.

Ele está muito machucado.

-Eu pensei que você poderia me ajudar!

-Como? Eu e Bernardo não estamos mais juntos.

-Mais ele te ouve.

-Você está enganado…

-Não estou... Como disse naquele dia ele ia fazer um escândalo na hora do discurso, ele só não fez porque você pediu a ele para não fazer.

Abro a boca e fecho. Não pode ser.

-Eu não pedi nada a ele…

-Você fez algo Camila... Porque ele disse ao meu pai que só não fez um escândalo, graças a você.

Só pode ter sido a dança... Quando eu pedi a ele para manter a promessa de se cuidar.

Ele estava prestes a fazer um escândalo que ia magoar muitas pessoas e até prejudicar o hospital.

Meu Deus! A que ponto chegaram os traumas do Bernardo!

-Acho que se lembrou de algo... Enfim, não importa. Eu só queria que você o convencesse a me receber. Eu desenvolvi um projeto pensando no meu irmão. Todo o andamento deste projeto foi idealizado para que nós dois trabalhássemos juntos, Camila. Ele acha que eu vim para pegar o lugar dele do hospital! Não é isso! E eu nem preciso do hospital... -Ele sorri. E o que vejo em seus olhos agora, é só admiração. - Eu me tornei um stalker do ortopedista Dr. Bernardo Thomson. Eu tenho muito orgulho da pessoa que ele se tornou, apesar de todo autoritarismo do meu pai. Apesar de ter sido um jovem problemático. Até isso é minha culpa!

-Você tem muitas culpas.

-Você não faz idéia.-Ele se levanta da cadeira e se vira para a janela, olhando a rua movimentada. -Eu voltei ao Brasil para tentar concertar algumas coisas e encarar outras. Eu sei que vai ser difícil, mas eu preciso tentar.

-Eu não sei se posso te ajudar. Como você já deve ter percebido, ele não escuta muito o que os outros falam. Ele só faz o que ele quer…

-Mas pelo menos pode tentar... Eu te imploro... Eu já estou desesperado... E eu não quero causar problemas para ele... Ele vai acabar se afastando do hospital por minha causa, e eu não quero isso... Não quero que ele se afaste dos amigos.

-Ele deve ter ficado revoltado quando vocês armaram a reunião.

-Ficou... Arthur disse que ele desligou o telefone na cara dele... Mas eles têm uma espécie de lealdade que eu não entendo... Eu até gostaria de entender. Parece que as coisas estão bem... Meu tempo está acabando Camila. Preciso voltar à Suíça para dar andamento ao projeto. Preciso resolver se ele virá para o Brasil ou não. Eu não sei mais o que fazer para ele me ouvir.

-Já conversou com Senhor Armando. Ele é o único que consegue convencer Bernardo de algo.

-Nao quero envolver os três nisso. Meu pai já fez um estrago bem grande. Queria resolver sem usar da ajuda deles. Mas se você não aceitar, vou ter que recorrer ao tio Armando.

- Eu não posso fazer isso William. Se ele não fez o escândalo não foi por mim... Foi pq eu lembrei a ele que ele prejudicaria muitas pessoas se fizesse algo desse tipo. E o Bernardo morreria antes de ter que prejudicar um inocente.

Principalmente se é um inocente que ele ama.

-Eu não tenho essa influência sobre ele. Sinto muito em não poder te ajudar.

Ele me olha sério e diz:

-Ok! Fiquei feliz por essa conversa, mesmo não dando resultado nenhum. Percebi que meu irmão é cercado de pessoas que o amam. Então eu sei que ele sempre ficará bem. Obrigada Camila, por me ouvir.

Eu sorrio sem abrir os lábios, e ele sai da minha sala.

Eu continuo olhando para a janela à minha frente, e vendo os carros passar na rua.

Eu fiquei feliz em saber que ele não fez o escândalo por que fiz ele refletir.Mas convencer a ele a falar com William? Isso está bem fora da minha alçada.

Fora que eu não estou preparada ainda para conviver com ele ... Eu ainda preciso de um espaço. E se procurasse ele daria margem para ele começar a me procurar. Não preciso de Bernardo bisbilhotando a minha vida. Não agora …

Mas o Willian foi tão sincero! Fiquei com pena! Muita pena... Bernardo podia ser menos mula... Só podia.

Merda!

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