Bernardo Thomson
Já cheguei ao Brasil há dois dias. Ontem fui ao hospital ficar por dentro de tudo que rolou na minha ausência. Passei um tempo com minha mãe também, fui entregar os presentes que trouxe para ela.
Acabou que jantei com eles ontem. E oficialmente, conheci meus sobrinhos.
Conseguir ser simpático pelo menos, e descobri que os meninos são maneirinhos. Já a minha cunhada não é tanto... Acho que a antipatia foi mútua. Aquela ali eu vou ter que engolir, correndo o risco de ter uma indigestão.
Estou voltando do hospital depois de uma reunião com os acionistas onde repassamos o projeto para eles. A votação para que o projeto seja aceito ocorrerá na semana que vem, então quanto mais rápido fizéssemos essa reunião, mais rápido as coisas andariam. Hoje definitivamente foi um dia corrido. Entre essa reunião com os acionistas, outra com o jurídico do hospital nos tomou o tempo todo.
Tio Armando participou de todas como consultor. Enfim, estávamos preparados para dar início ao projeto da minha vida, se não fosse o maior, sem sombra de dúvidas seria um dos maiores. Eu estava animado, e meus irmãos também.
Eles estavam com aquele brilho nos olhos de homens apaixonados e realizados. Eu continuava não concordando com o rumo que foi dado em suas vidas, mas eu não podia mentir para mim mesmo: eles estavam felizes, e minha obrigação, era ficar feliz com a felicidade deles, mesmo que eu não concordasse com nada.
Como Camila dizia: "não é da nossa conta, então se não é da nossa conta, não temos direito de opinar "
Em falar nela, não mandei mais mensagens desde que cheguei. Eu não corria risco de fraquejar quando estava na Europa. Mas aqui, ao lado da casa dela, seria arriscado demais manter comunicação com ela.
E eu não podia correr riscos com a Camila. Eu não entendia bem o que rolava conosco, eu só sei que eu não era equilibrado o bastante para manter minhas decisões com ela. E seria bem capaz de um abraço inocente dela, eu perder as estribeiras.
E ela não queria mais... E nem eu deveria querer também. Bernardo Thomson não voltava atrás nas suas decisões. Eu não tinha culpa que a nossa ligação era forte, mas isso não significava ter Camila na minha cama...
E se eu voltasse a ir visitá-la eu poderia me tornar impulsivo como Arthur.
E eu não queria isso... Essa fase já havia acabado. O nosso relacionamento já havia acabado. E apesar de não compreender bem os seus motivos, ele foi de comum acordo. Eu não tinha que ficar insistindo e alimentando algo que não daria em nada. Então o afastamento era importante. Bem importante…
Chego em casa e estaciono o meu carro na garagem. Por mim eu ficaria aqui hoje só curtindo a minha casa... O meu canto...Mas teríamos o noivado do Paulo. E ele estava ansioso e feliz por isso!
Então minhas obrigações estavam em primeiro lugar!
Quando estou abrindo a porta do carro, vejo André se aproximando. Ele foi comigo na viagem, e não me acompanhou ao hospital hoje porque estava reorganizando a segurança.
-Boa tarde senhor.
-Boa tarde André... Já organizou tudo?
-Quase tudo, senhor.
Estou doido para ver o relatório da Fernanda. Eu pedi urgência nisso para ele. Para mim esse relatório é o mais importante. Nunca tem muitas novidades, nem no relatório e nem nas câmeras, mas mesmo assim eu gosto de ler. Porque eu não fiz Barreto convencer ela a por uma câmera no ateliê? Pelo menos eu ia ver minha ex- menina trabalhando. Ela quase nunca está na loja.
Não era sempre que eu olhava essas imagens... Apenas quando a saudade era grande. Nós terminamos e não temos volta, mas isso não quer dizer que eu perdi o interesse em observar Camila e saber de seus passos.
Eu estava ansioso por ter alguma informação ou qualquer outra imagem que pudesse dela.
Eu estava com saudade. Mas não tanto, a ponto de mandar mensagem. Isso não.
Eu tinha que esquecer Camila... Porque daqui a pouco o prazo para manter Fernanda acabaria. E aí eu não teria mais informação nenhuma.
-Pode me mandar o relatório da Fernanda. Vou dar uma olhada depois do banho.
-Antes que veja o relatório, Barreto quer trocar uma palavra com o senhor.
-Eu ligo para ele, só espera eu tomar um banho…
-Senhor, ele quer vir aqui pessoalmente.
O que? Porque Barreto quer me ver pessoalmente. Ele quase nunca vem aqui.
E hoje Arthur sairá do casarão. Quer dizer, vai precisar dele. Porque ele quer vir aqui?
-Aconteceu algo André?
-Acho melhor ele te dizer…
-Se aconteceu algo com Camila diga logo, porra... Pra que esse suspense?
-Não aconteceu nada com ela. Está tudo bem... Mas ele quer entregar o relatório da Fernanda pessoalmente.
Eu bufo.
-OK! Fala para ele que estou esperando. Para ele não demorar.
-Ele já está a caminho.
O que será que aconteceu?
-André…
Ele se vira e me olha. É impressão minha ou meu segurança está fugindo de mim?
-Você sabe o motivo do Barreto querer me entregar o relatório pessoalmente?
-Senhor, eu não estou autorizado a dizer. Como disse ele quer tratar disso pessoalmente.
-Diacho!!!
**********
Estou andando de um lado para o outro na minha sala . Já é a segunda dose de whisky e nada do Barreto aparecer. Quando estou prestes a ligar para ele, aparece na minha frente. Com aquela expressão que não dá para decifrar nada.
-O quê está acontecendo Barreto?
-Nada…
-Então porque esse suspense com o relatório da Fernanda?
Ele suspira.
-Posso me sentar?-Faço sinal para o sofá. Não estou gostando disso.-Doutor Bernardo quando tratamos da segurança da Senhorita Camila depois do contrato, o senhor se lembra do que eu te disse?
Eu não estou gostando disso.
-Que você não poderia dar segurança a ela, se ela não aceitasse e seria dentro dos limites dela. Que se eu quisesse saber mais detalhes da vida dela eu teria que pôr um segurança fantasma.
Como Paulo fez com Sabrina, quando ela viajou. Só que na época eu achei isso desnecessário. Ainda acho. Não tenho planos de voltar com a Camila, e nem ela tem planos de voltar comigo. Ficar espionando ela o tempo todo só me faria passar mais tempo sofrendo por uma perda que era certa. Eu queria apenas garantir a segurança dela.
Alguma coisa me diz que eu fiz uma péssima escolha.
-Isso... Eu não podia ultrapassar os seus limites, já que não havia mais um contrato.
-O quê você está tentando me dizer Barreto? Vá direto ao assunto.
-Infelizmente eu não tive como não fazer o que ela queria. Ele é um ótimo profissional! Sempre teve um contrato ético com o senhor…
-Eles deu em cima dela…
-Foi a única falta que ele teve em todos os anos que trabalhou aqui.
-Isso tem dedo da Fernanda, como ela ia saber que ele estava disponível? -Barreto não fala nada... ele sabe que foi Fernanda que deu essa opção.-Não vai defender sua namorada?
-Antes de ela ser minha namorada, ela é minha funcionária, Doutor. Ela não infringiu nenhuma regra. Ela está pondo as decisões de sua protegida em primeiro lugar.
-Inferno!
Bufo de novo. Passando as mãos no cabelo. Tudo o que eu queria, aquele babaca rondando minha gaiola.
"Ela não é mais seu passarinho. Lembra? -minha consciência volta a falar."
Ele me dá um pen drive e diz:
-Bom, ele fez a segurança dela por uma semana. Aqui está o relatório dele. Aqui também tem os vídeos das câmeras da loja e calçada. O senhor poderá perceber que ele se manteve o tempo todo no seu posto em frente a loja, tirando as horas em que ele tinha que acompanhar ela em algum compromisso. Ele cumpriu as ordens milimetricamente, doutor. Foi impecável! Queria que o senhor soubesse por mim. Afinal, o combinado era que Fernanda continue fazendo a segurança, e eu não pude manter o trato.
-Eu quero demitir a Fernanda.
Falo sem pensar... Ela está junto com Camila me manipulando desde o começo. Como não pude ver isso antes? Duvido que não foi ela que contou do telefone grampeado. Como vou confiar nela novamente?
-Tem certeza? Porque se demitir Fernanda, Camila não vai aceitar outro segurança.
Ainda tem isso... Eu não posso pôr em risco a vida da Camila.
Mas eu poderia contratar um segurança para espionar ela de longe.
"Você não quer mais nada com ela, Bernardo. Porque vai fazer isso? Ficar espionando... Vivendo a vida dela... Você só vai prolongar seu sofrimento. -digo para mim mesmo..."
-Esquece, Barreto. Deixa tudo como está. Isso ia acabar acontecendo. Ela está se envolvendo com outras pessoas.
Eu me viro para a janela e fico olhando a luz do luar refletindo na piscina.
Sinto ele atrás de mim, ao mesmo tempo que ele diz.
-Não houve nada doutor. Ele realmente só a protegeu. Pode ter certeza disso.
Não falo nada…
Porque sei que se falar algo para ele, eu vou perder as estribeiras.
Eu estou bem puto com essa situação. Mas não tenho direito nenhum de estar puto. Se aconteceu algo, Camila tem todo direito de recomeçar. Eu não posso ficar regulando ela…
Não posso…
Mesmo porque eu tenho a minha vida para pôr nos trilhos.
-Até mais tarde, doutor!
Ele fala e ouço ele se afastando e indo embora.
Inferno de vida! Agora essa merda!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Redenção do Ogro
A história desse livro é muito massa e uma Pena que está postado a história toda...