Bernardo Thomson
Ela está pálida e a roupa que está usando está contribuindo bem para a sua palidez. Usa uma pantalona larga preta, com uma camisa de gola alta e mangas compridas também preta. Seu cabelo está preso num rabo de cavalo, nitidamente mais magra.
Eu me afastei dela para ela ficar bem, não pra ficar doente.
-Bernardo! Não sabia que já tinha voltado de viagem..
-O quê está acontecendo?
Ela pisca algumas vezes e diz:
-Não entendi…
- Você está bem?
Ela suspira e confirma com a cabeça, logo vê as clientes observando nós dois.
-Boa tarde! - Ela diz sorrindo. Conversa um pouco com elas ,e depois ela se concentra em mim novamente. -Podemos conversar lá no ateliê?
Eu confirmo com a cabeça e sai andando na minha frente.
Tem algo muito errado, não era para ela estar mais magra, parecia que estava sumindo. E porque estava com aquele olhar vazio e cansado? Eu queria pelo menos encontrar eles brilhando de felicidade, afinal ela tinha a vida que ela sempre quis. Eu era o transtorno dela. Só eu…
Entra no ateliê e começa a guardar algumas coisas que estão em cima de uma mesa.
-Senta , eu vou pedir para a Carol fazer um café. Eu estava terminando esse vestido, preciso terminar até amanhã, então desculpe a bagunça.
-Camila, não quero café... Só quero que me diga o que está acontecendo. Voltou a ter crises de pânico? Você está muito magra, cansada e com olheiras. Não está dormindo direito? Eu me afastei de você pensando que fosse se cuidar.
-Bernardo…
-Não... Eu sei que vai me dizer que eu não tenho nada a ver mais com a sua vida, que eu tenho que te deixar em paz e que não quer mais nada comigo. Mais porra! Eu não consigo! Chego de viagem e te encontro assim? E cadê aquela sonsa que não está cuidando de você? Ela me prometeu que ia cuidar de você... Paulo e Arthur também... Eles não estão vendo que você nitidamente está doente?
-Bernardo…
- Senta Camila... -eu apontei para a cadeira e ela suspirou se sentando. Ainda bem que continua obediente.
-Podemos ir jantar... Eu e você... Podemos ir no restaurante que você ama... Eu duvido que tenha comido algo decente esse tempo todo.
-BERNARDO... -ela grita.
Eu me calo e fico olhando para ela. Ela suspira e diz:
-O quê veio fazer aqui?
-Não é óbvio?
-Pra mim não…
-Vim cuidar de você…
-Bernardo, nós já conversamos sobre isso... Eu…
- Não fala nada...- Eu me ajoelho na sua frente e pego suas mãos. Elas estão frias. -Está com frio? -Ela olha para as nossas mãos conectadas e balança a cabeça dizendo não. -Eu viajei para te deixar em paz. Não interferir mais no seu namoro com Daniel. Eu sei que se continuasse por aqui ia acabar fazendo isso. Queria por a minha cabeça em ordem.
-É porque voltou tão cedo? As meninas me disseram que era uma viagem longa…
-Porque eu cansei de me enganar... -ela me olha e pisca os olhos. Tira as suas mãos do meu contato e se levanta indo para o janelão e se virando de costas para mim.
Eu me sento na cadeira em que ela estava e espero.
-Se enganar com o que?
-Que o que sinto um dia vai acabar. Que esta conexão que temos um dia vai diminuir. Nos últimos cinco meses a minha vida foi um inferno. Eu fiquei sem o meu porto seguro... Sem minha amiga... E sem a mulher da minha vida. Eu sei que eu demorei um pouco pra entender isso. -eu sorrio não achando nenhum pouco de graça.
De repente eu fiquei muito inseguro! Ela se levantou para não olhar nos meus olhos, ou para aumentar a distância entre nós? Já que quando estamos juntos é difícil manter nossas mãos longe um do outro.
Será que o que aconteceu no casamento eu interpretei de uma forma errada? Será que ela está realmente apaixonada pelo Daniel?
-Eu não estou entendendo. -ela fala baixinho ainda virada de costas pra mim.
-Eu quero tentar novamente. Eu estou disposto a tudo Camila. Até me afastar do BDSM se for isso que você quer. -ela se vira e me olha com os olhos arregalados. -Eu tô muito certo do que quero Camila... -Me levanto e me aproximo dela segurando em seus ombros. -Eu não consigo ficar mais longe de você... Podemos tentar o que você quiser ... Quer uma relação baunilha, podemos... Quer voltar a ter um contrato comigo? Podemos... Quer trabalhar e morar aqui sozinha? Também podemos... Podemos nos ver só final de semana se você quiser... Qualquer coisa Camila, mas seria um desperdício, a gente ignorar tudo isso que sentimos…- Ela não esboça nenhuma reação. Apenas me olha... Com aqueles olhos vazios...Merda! Eu perdi a Camila? -Fala alguma coisa... Você está namorando com o Daniel? É por isso que me olha como se eu fosse um desconhecido que tivesse falando alemão?
Ela volta à realidade. Pisca um pouco e diz:
-Eu só não esperava…
-Você está com Daniel, Camila?
-Não... Eu estou sozinha... Mas... Mas... -ela puxa o ar umas três vezes, se escora na mesa e diz.- Eu não estou me sentindo…
E assim eu vejo o meu mundo ruir...
Ela põe uma mão no coração e abre a boca desmaiando na minha frente.Só dá tempo de amparar ela antes que ela caia no chão.
-Merda! Camila…
Eu a pego no colo e levo até um divã que tem no ateliê, a deitei ali e verifiquei a sua pulsação.
O quê?
Sem pulsação?
Seus lábios começam a ficar roxos.
Que merda é essa?
-FERNANDA!
Ela entra, devia estar por perto…
-O quê houve? Meu Deus…
-Chame uma ambulância, ela está sem pulso ... AGORA...
Ela sai correndo do ateliê e eu começo a fazer massagem cardíaca e respiração boca a boca.
-Não Camila, você não tem permissão de fazer isso comigo...
-Me abaixo para escutar seu coração e não ouço nada... vou me desesperando… -Anda Camila, respira. -Dou um soco no seu peito, e ela volta tossindo. A seguro pela nuca. -Graças a Deus! Respira…
Ela me olha com os olhos arregalados.
-O quê? Está querendo me dizer que Arthur sabia? Quem mais sabia? Ou só o babaca aqui que não sabia de nada? Eu vou entrar agora ... Ele vai ter que me explicar isso direitinho.
Me levanto do chão e vou andando para a porta da emergência.
Barreto me segura.
-Você vai atrapalhar Bernardo... Calma... Ela não precisa ficar nervosa agora vendo você nervoso.
Eu passo a mão pelo cabelo de novo e sinto meu coração na garganta palpitando.
Merda! Eu nunca fui de rezar, mais pelo amor de Deus... Se o Senhor gosta de mim só um pouquinho não deixa acontecer nada com ela. Não deixa…
-Bernardo…
Olho para onde me chamam e vejo o japonês vindo correndo em minha direção, seguido por tio Armando.
-Como ela está?
-Eu não sei... Ninguém fala nada... -passo a mão pelo cabelo. E se ela teve outra parada cardíaca? Seu coração não estava batendo direito.- Ninguém deixa eu entrar... Eu tô perdendo a paciência…
-Calma... Eu vou ver como estão as coisas …
-Eu vou com você…
-Vai não…
-Vou sim...e quero ver alguém me impedir.
Ele me segura pelo braço e diz:
- Quer que ela te veja nervoso. Eu vou e volto pra te dar notícias.
-Fica aqui com titio…
-O quê está acontecendo? Vocês podem abrir a porra da boca e me dizer o que está acontecendo?
Falo gritando olhando dentro dos olhos dos dois.
Escuto quando o tio Armando me diz:
-Eu te explico... Vem, vamos tomar um café…
-Não tio, eu não vou sair daqui…
-Eu vou na lanchonete te procurar quando sair. Você não quer saber o que está acontecendo? -Paulo fala me encarando.
Eles todos esconderam isso de mim?
-Todos vocês sabem o que está acontecendo? -Falo incrédulo.
-Vem Bernardo ... Vamos conversar…
Tio Armando me puxa e eu ainda caminho olhando para o Paulo com decepção nos olhos. Como eles puderam fazer isso comigo?
Como?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Redenção do Ogro
A história desse livro é muito massa e uma Pena que está postado a história toda...