Kátia virou a cabeça de mansinho, mas foi repreendida por Luan.
— Se quiser continuar viva, controle sua curiosidade.
Kátia voltou a olhar para a frente de imediato. Era verdade, curiosidade demais só traz problema.
Erasmo não se mexeu até que o quarto mergulhou no silêncio.
Ele se virou, encostou-se na parede e, enfiando a mão no bolso da calça, tirou um cigarro, colocando-o entre os lábios.
O isqueiro girou inúmeras vezes entre seus dedos longos e bem definidos.
O atrito da pedra finalmente fez barulho no corredor silencioso, mas a chama teimava em não acender.
Justo quando Erasmo estava prestes a chamar Luan, a porta do quarto se abriu abruptamente.
Os olhares se cruzaram, e Erasmo ficou atordoado por um instante.
— Erasmo, você não tinha voltado para a capital? O que está fazendo aqui? — perguntou Clarice, confusa.
Quem havia saído era Clarice. Suas roupas estavam impecáveis, sua postura era serena e sua expressão, normal. Não havia um único sinal de que algo estivesse errado.
Erasmo pigarreou levemente. Como se nada tivesse acontecido, tirou o cigarro da boca, e um sorriso despontou em seus lábios.
— Vim resolver uns assuntos. E você, o que... ?
Ao ouvir a pergunta de Erasmo, foi que Clarice se lembrou de Orlando dentro do quarto.
Estava frita. Como explicaria a situação para Erasmo? Especialmente porque sequer lhe dissera que compareceria ao banquete de aniversário de Orlando.
E agora, não apenas tinha comparecido, como também saía do mesmo quarto que ele. Para piorar, se alguém visse o estado de Orlando naquele momento, as conclusões seriam inevitáveis.
Clarice baixou os olhos e rangeu os dentes intimamente. Ah, cérebro inútil, pense em alguma coisa!
Como ela ia justificar aquilo?
Clarice não teve coragem de erguer a cabeça para olhar para Erasmo, o que o levou a interpretar erroneamente que ela havia se arrependido de se divorciar de Orlando.
A alegria que sentira ao vê-la sair intacta evaporou num piscar de olhos.
Sua voz ganhou um tom mais sombrio.
— Clarice, o que foi? Por que não diz nada?
Erasmo deu alguns passos, aproximando-se lentamente. Momentos antes, ele pensava que, se ela tivesse se arrependido, respeitaria a sua escolha.
Mas, ao colocar os olhos nela, qualquer ideia de sacrifício altruísta desapareceu na mesma hora.
Sobretudo pelos olhares insondáveis e complexos que direcionavam a Orlando.
A cama enorme estava uma bagunça completa. A camisa branca de Orlando havia sido rasgada em tiras.
O rosto dele, antes até bonito, agora estava coberto de hematomas roxos e esverdeados.
No entanto, ele permanecia de olhos fechados, com a expressão pacífica de quem estivesse dormindo profundamente.
— Bem, não me leve a mal. Fui obrigada pelas circunstâncias, não tive outra escolha. — Clarice massageou as têmporas e olhou para Erasmo.
— Quando voltarmos, eu explico tudo, eu...
Erasmo curvou os lábios. Seus traços excepcionalmente belos pareciam banhados por uma aura suave e divina.
O sorriso em seu rosto suavizou de repente, como se todo o frio ao redor tivesse desaparecido.
— Está tudo bem, você fez um ótimo trabalho. Não precisa me explicar nada.
A voz grave e magnética tocou seu coração com a suavidade de uma pluma.
Clarice ficou completamente encantada, sem conseguir desviar o olhar.

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