"Lorena"
O Érick e o Julian me olhavam boquiabertos. A Marcelina tinha sido exatamente o que o Julian estava dizendo, uma tempestade.
- É a Marcelina! - Foi tudo o que eu consegui dizer.
- "Se comporte, Julian". Ela me deu uma ordem. Eu amei essa mulher. - O Julian se desmanchou no sofá, parecendo um adolescente que acabava de levar um fora da garota que queria, mas só conseguia ficar feliz por ter sido notado por ela.
- Você está perdido, baby! - O Érick sentenciou com uma pitada generosa de ironia. - Sua amiga é bem divertida. - Ele me puxou para um abraço. - Pernas bambas, é?!
- Ela é um perigo público. - Eu corrigi, embora uma parte de mim estivesse começando a acreditar que aquele caos era exatamente o que precisávamos.
Enquanto o som da risada do Érick e as provocações do Julian preenchiam o ar, eu sentia uma ansiedade estranha. Trazer a Marcelina para essa casa era como convidar um incêndio para uma sala cheia de pólvora. Eu adorava a Marcelina, mas ela era a prova viva de tudo o que eu tentava esconder. Ela era o meu elo com a boate e eu estava colocando nós duas em risco.
Por um momento, eu me perguntei se não estava facilitando o trabalho do Conselho, servindo a minha cabeça em uma bandeja de prata. Mas o olhar de confiança que o Érick me deu arrancou a hesitação de mim. Se ele acreditava no plano, eu precisava acreditar em mim mesma. Ou, pelo menos, na capacidade da Marcelina de ser o caos que precisávamos.
- Muito bem, agora vamos atrás da bruxa irritante. - O Érick se levantou e me ofereceu a mão. - Vamos avisar que amanhã a noite haverá uma "tempestade" nesta casa.
Nós entramos na cozinha e a Alice estava sentada no balcão balançando as perninhas, enquanto a D. Heloísa reclamava com a Adelaide que a prataria e os cristais estavam mal polidos.
- D. Heloísa, eu já poli três vezes, a senhora viu. Não tem uma mancha aqui. - A Adelaide reclamou e eu entendi como foi que tivemos tempo para conversar tranquilamente no escritório, a D. Heloísa estava mantendo a Adelaide bem ocupada.
- Pois faça de novo, Adelaide! Eu vejo manchinhas ainda. Para se gabar da perfeição você tem que ser perfeita. - A D. Heloísa insistiu, sem sequer titubear ou dar uma segunda olhada.
A Adelaide sentou-se e pegou o pano para polir a prataria mais uma vez. Eu tive vontade de rir. A imagem da governanta soberana sendo tratada como uma aprendiz era impagável. Eu deveria pedir para a D. Heloísa me ensinar esses truques.
- Adelaide. - O Érick chamou, o tom mudando para o comando absoluto que fazia até as paredes daquela cozinha tremerem. E me fez olhar para o balcão e suspirar. - Amanhã teremos um jantar íntimo. Uma convidada da Srta. Valente virá passar a noite e jantar conosco. Quero o melhor serviço, o melhor vinho e absoluta discrição. Prepare o quarto de hóspedes ao lado da suíte principal.
Eu vi o maxilar da Adelaide travar. A ideia de uma "convidada minha" ter honras de convidado de luxo na mansão, dormindo na ala principal, era o golpe final no orgulho dela.
- Uma convi-da-da... da Srta. Valente? - Eu vi o olhar de desespero da Adelaide, ela odiou a ideia de outra como eu na casa.
O Érick apenas a encarou com os olhos frios, a desafiando a fazer qualquer comentário.
- Como desejar, Sr. Albelini. - Ela respondeu, a voz quase engasgada, como se saísse arranhando a garganta.


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