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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 133

"Lorena"

O Érick e o Julian me olhavam boquiabertos. A Marcelina tinha sido exatamente o que o Julian estava dizendo, uma tempestade.

- É a Marcelina! - Foi tudo o que eu consegui dizer.

- "Se comporte, Julian". Ela me deu uma ordem. Eu amei essa mulher. - O Julian se desmanchou no sofá, parecendo um adolescente que acabava de levar um fora da garota que queria, mas só conseguia ficar feliz por ter sido notado por ela.

- Você está perdido, baby! - O Érick sentenciou com uma pitada generosa de ironia. - Sua amiga é bem divertida. - Ele me puxou para um abraço. - Pernas bambas, é?!

- Ela é um perigo público. - Eu corrigi, embora uma parte de mim estivesse começando a acreditar que aquele caos era exatamente o que precisávamos.

Enquanto o som da risada do Érick e as provocações do Julian preenchiam o ar, eu sentia uma ansiedade estranha. Trazer a Marcelina para essa casa era como convidar um incêndio para uma sala cheia de pólvora. Eu adorava a Marcelina, mas ela era a prova viva de tudo o que eu tentava esconder. Ela era o meu elo com a boate e eu estava colocando nós duas em risco.

Por um momento, eu me perguntei se não estava facilitando o trabalho do Conselho, servindo a minha cabeça em uma bandeja de prata. Mas o olhar de confiança que o Érick me deu arrancou a hesitação de mim. Se ele acreditava no plano, eu precisava acreditar em mim mesma. Ou, pelo menos, na capacidade da Marcelina de ser o caos que precisávamos.

- Muito bem, agora vamos atrás da bruxa irritante. - O Érick se levantou e me ofereceu a mão. - Vamos avisar que amanhã a noite haverá uma "tempestade" nesta casa.

Nós entramos na cozinha e a Alice estava sentada no balcão balançando as perninhas, enquanto a D. Heloísa reclamava com a Adelaide que a prataria e os cristais estavam mal polidos.

- D. Heloísa, eu já poli três vezes, a senhora viu. Não tem uma mancha aqui. - A Adelaide reclamou e eu entendi como foi que tivemos tempo para conversar tranquilamente no escritório, a D. Heloísa estava mantendo a Adelaide bem ocupada.

- Pois faça de novo, Adelaide! Eu vejo manchinhas ainda. Para se gabar da perfeição você tem que ser perfeita. - A D. Heloísa insistiu, sem sequer titubear ou dar uma segunda olhada.

A Adelaide sentou-se e pegou o pano para polir a prataria mais uma vez. Eu tive vontade de rir. A imagem da governanta soberana sendo tratada como uma aprendiz era impagável. Eu deveria pedir para a D. Heloísa me ensinar esses truques.

- Adelaide. - O Érick chamou, o tom mudando para o comando absoluto que fazia até as paredes daquela cozinha tremerem. E me fez olhar para o balcão e suspirar. - Amanhã teremos um jantar íntimo. Uma convidada da Srta. Valente virá passar a noite e jantar conosco. Quero o melhor serviço, o melhor vinho e absoluta discrição. Prepare o quarto de hóspedes ao lado da suíte principal.

Eu vi o maxilar da Adelaide travar. A ideia de uma "convidada minha" ter honras de convidado de luxo na mansão, dormindo na ala principal, era o golpe final no orgulho dela.

- Uma convi-da-da... da Srta. Valente? - Eu vi o olhar de desespero da Adelaide, ela odiou a ideia de outra como eu na casa.

O Érick apenas a encarou com os olhos frios, a desafiando a fazer qualquer comentário.

- Como desejar, Sr. Albelini. - Ela respondeu, a voz quase engasgada, como se saísse arranhando a garganta.

- Eu não entendi o que vocês querem fazer ainda, porque a Adelaide ja tem certeza que a Lorena é um mal que precisa ser extirpado. - A D. Heloísa me olhou como se pedisse desculpas.

- A ideia é simples, mãe. - O Érick interviu e explicou todo o plano para a D. Heloísa, que assentiu, pensativa.

- Lorena, se vamos fazer esse teatro, é melhor a Alice não estar presente. Ela pode deixar escapar qualquer coisa. Amanhã, ao final da tarde, eu levarei a Alice para dormir na minha casa. Diremos que é uma noite especial de avó e neta. Assim, vocês poderão fazer o que pensam sem se preocupar. - A D. Heloísa me encarou seriamente.

- Obrigada, D. Heloísa. - Eu respondi, sentindo um peso sair dos meus ombros. - Eu estava preocupada com o que a Alice poderia ouvir e pensar.

- Não se preocupe, querida. Eu cuidarei da minha neta enquanto vocês têm uma noite de adultos. - A D. Heloísa deu um sorriso enigmático. - Apenas se certifiquem de que a Adelaide ouça tudo.

- Pode deixar, mãe, ela vai ouvir as notícias muito bem. - O Érick sorriu, aquele sorriso sombrio que indicava que ele tinha exatamente o que queria, o controle da situação.

- Mas depois eu quero conhecer a sua amiga, Lorena. - A D. Heloísa sorriu.

- Eu não sei se deveria, D. Heloísa. - Eu respondi me afundando na cadeira e o Érick e o Julian caíram na risada outra vez.

Mas a sorte estava lançada, o plano estava traçado e o cenário estava sendo organizado. Eu só esperava que esse feitiço não se virasse contra mim.

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