"Lorena"
Eu nunca imaginei que sentiria prazer em ser autoritária, mas ver o rosto da Adelaide se contorcer enquanto eu a mandava trocar as toalhas pela terceira vez foi estranhamente revigorante.
A D. Heloísa tinha me dado um conselho: irritar a Adelaide o máximo que eu pudesse ao longo do dia para que, quando jogássemos as informações, ela sequer pensasse, simplesmente agisse por vingança e cega de ódio. E a melhor forma de irritar a Adelaide era corrigir o trabalho dela, quer dizer, eu corrigir o trabalho dela.
- Adelaide, essas mesinhas estão cobertas de poeira, a minha amiga é alérgica. - Eu comentei passando o dedo sobre a superfície. - E olha quantas manchas nesse aparador.
Ela esfregava a mobília do quarto de hóspedes com tanta força que eu tive pena dos móveis. Cada movimento era carregado de um ódio que eu não sabia como ela estava conseguindo conter.
- Adelaide, as flores que eu pedi. - Eu chamei, minha voz saindo com uma calma que eu aprendi observando a Dona Heloísa. - Eu pedi camélias vermelhas, não essas rosas brancas. Minha convidada tem um gosto específico.
- Srta. Valente, as rosas são muito mais elegantes. - Ela respondeu, e o som do meu sobrenome na boca dela parecia um insulto.
- Eu não perguntei sobre a elegância das flores, Adelaide, eu disse que a minha convidada prefere camélias vermelhas. - Eu respondi e jurei ter visto a fumacinha saindo da cabeça da Adelaide. - Providencie a troca imediatamente.
Eu saí do quarto de hóspedes com o coração batendo forte. Eu estava marcando território, mas o verdadeiro teste seria mais tarde. Quando eu já não tinha mais o que fingir corrigir no quarto de hóspedes, eu fui me arrumar.
Quando eu cheguei a sala de jantar, a mesa já estava posta. Eu chamei a Adelaide e a fiz trocar os talheres, as porcelanas, as taças de cristal e até a toalha da mesa. Eu fui uma verdadeira tirana e quando tudo pareceu finalmente satisfatório, eu a mandei colocar o uniforme de gala.
- Uniforme de gala, Lorena?! Mas isso é... - Ela tentou questionar e eu ergui o dedo a fazendo se calar.
- É Srta. Valente para você, é assim que o seu patrão gosta. - Eu a lembrei e ela não conseguiu disfarçar o desgosto estampado no rosto. - Isso é um jantar formal, eu quero que você use o seu melhor uniforme. Vá se trocar.
Ela deu as costas, os sapatos batendo no chão ruidosamente.
- Adelaide. - Eu chamei e ela se virou. - Caminhe com suavidade, isso aqui é uma residência respeitável, não um quartel do exército!
Ela bufou e se virou, saindo da sala. Eu ouvi uma risada baixa atrás de mim e me virei.
- Ela gostaria muito que isso aqui tivesse a disciplina de um quartel, Lô. - O Érick estava parado a porta, simplesmente lindo em seu terno azul marinho, a camisa branca e uma gravata azul, da cor dos seus olhos. Coincidentemente a mesma cor da lingerie que eu estava usando.
- Gostei da gravata. - Eu caminhei até ele e passei os braços em seu pescoço.
- Achei apropriada. - Ele baixou o tom de voz. - Eu vi você se arrumar. Estou louco para roubar essa calcinha azul.
- Você ainda me deve a última peça que roubou. - Eu brinquei.
- Você precisa ir resgatá-la no meu escritório. - Ele respondeu e deu um beijo logo abaixo da minha orelha.
- Acho que tsunami defini melhor a sua amiga do que tempestade. - O Érick falou no meu ouvido e escondeu o riso no meu cabelo.
- E você... deve ser a Adelaide. A Lô me falou que você é a... guardiã desta casa. - A palavra saiu da boca da Marcelina com um deboche escancarado, mas a Adelaide estava perplexa demais para responder. - Onde eu deixo minha mala, querida?
- A... a... a ma... - A Adelaide não conseguia formar uma palavra.
- Quer saber, tá aqui, você sabe o que fazer. - A Marcelina empurrou a sua pequena valise na Adelaide que quase a deixou cair. - Lôôô! - A Marcelina veio em minha direção e me abraçou como se não nos víssemos há muito tempo. - E você é o gostosão da Lô. - A Marcelina se virou para o Érick com um sorriso de orelha a orelha.
- É um prazer, Marcelina, eu sou o Érick. - O Érick ofereceu a mão para um cumprimento formal e a Marcelina o puxou para um abraço.
Os olhos da Adelaide estavam quase saltando das órbitas, mas antes que a ela pudesse ter um infarto, a porta se abriu com força. O Julian entrou, o rosto vermelho e a gravata ligeiramente torta.
- Marcelina! Eu disse que ia te buscar! Eu atravessei a cidade! Por que você pegou um táxi? - O Julian parecia irritado.
- Ai, baby, você demorou, pensei que nem fosse mais. - Ela fez um biquinho, ajeitando o cabelo. - E como eu não tinha o seu número para confirmar... achei melhor pegar um táxi. O Albelini odeia atrasos, não é? Eu não ia fazer feio.
O Érick estava observando tudo com aquele meio sorriso que indicava que ele estava se divertindo mais do que deveria.

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