"Érick"
O Julian tinha toda razão, a Marcelina era uma tempestade caótica e que reverberava pelo ambiente. Ela flertava com o exagero, mas se mantinha dentro do limite do divertido com uma pitada de excentricidade. De alguma maneira ela me lembrava a boate Infernal... e lembrar daquela boate me fazia lembrar de uma outra mulher.
E, talvez por isso, quando eu olhei de volta para a Lorena, rindo com as piadas do Julian, eu não pude pensar nela e na Marcelina como uma versão menos apocalíptica das duas capetinhas que nos atendiam na boate. Pandora e Scarlat. Scarlat... aquela mulher que me deixou obcecado e se a minha fada não tivesse aparecido eu teria me destruído correndo atrás daquela mulher.
Eu segurei a mão da Lorena e dei um beijo cuidadoso. Nos últimos dias ela já não era mais como um coelhinho assustado, como dizia o Julian, ela tinha garras. Estava ocupando o lugar onde eu a coloquei, como a armadura certa para enfrentar os abutres que nos cercavam. Ela era segura, altiva, elegante. Ela era perfeita para estar ao meu lado.
E na cama... na cama ela queimava... aquele fogo que me enlouquecia... exatamente o mesmo furor que a Scarlat me causava. Eu nunca entendi como isso era possível. Duas mulheres completamente diferentes que me despertavam as mesmas sensações, os mesmos desejos, a mesma fome pelo seu corpo.
Droga! A Scarlat não passava de uma lembrança esfumaçada em minha mente. Ela tinha sido completamente apagada da minha vida. Mas por que eu estava sempre me lembrando dela? Isso não era justo com a Lorena. Eu afastei aquela capetinha da minha mente, virei a taça de vinho em um longo gole. Aquele passado e aquela mulher precisavam ser esquecidos. A Lorena era o meu presente e o meu futuro.
- Vamos passar para a sala? - Eu convidei e nós nos levantamos. - Adelaide, leve as bebidas para a sala.
Eu segurei a mão da Lorena e nós fomos nos sentar na sala de estar. Eu senti o exato momento em que o ambiente mudou. Adelaide entrou na sala com as bebidas, mas não era mais a governanta curvada pelo peso da humilhação. Seus passos eram leves, e havia um brilho doentio de satisfação em seus olhos que ela tentava, sem sucesso, esconder sob as pálpebras baixas.
Ela tinha ouvido tudo o que dissemos, mordido a isca, e estava tão contente, tão cheia de si, que nem se deu conta de que sua postura era outra. Agora era questão de tempo até tudo explodir e eu estaria preparado para desmoralizar o Simão. Depois disso a Adelaide estaria neutralizada.
Eu troquei um olhar rápido com o Julian. Ele também havia percebido a mudança. O Andrey arqueou uma sobrancelha para mim. Estávamos os três prontos para a batalha que armamos cuidadosamente.
- Você parece mais relaxada que durante o jantar, Adelaide. - Eu comentei, minha voz saindo com uma calma perigosa enquanto eu passava o braço pelos ombros de Lorena, puxando-a para mais perto. - O clima leve desta noite finalmente lhe fez bem?
- Estou apenas cumprindo o meu dever, Sr. Albelini. E estou feliz que a noite esteja acabando. Foi um dia longo. - Ela respondeu e eu notei um tom de audácia na sua voz que não estava lá antes. Ela achava que tinha a minha cabeça em uma bandeja.
Para terminar de desestabilizá-la, inclinei-me e beijei o pescoço de Lorena, com uma lascívia exagerada para o momento, eu senti o arrepio da pele dela e passei a ponta da língua pelo seu pescoço. A Lorena soltou um suspiro baixo, entregando-se ao jogo, e eu vi o canto da boca de Adelaide tremer. Na cabeça dela, eu era um homem enfeitiçado, um brinquedo nas mãos de uma vigarista.
- Albelini, não precisa se exibir. - O Julian interrompeu, mas sua irritação não era com o que eu estava fazendo e sim com o Andrey, que ignorava a nossa conversa para sussurrar algo no ouvido da Marcelina que a fez gargalhar. - Baby, o que esse felino está te prometendo? Porque eu garanto que o meu roteiro é muito mais interessante.
- O Tigrão não promete, julian. Ele faz! - O Andrey rebateu, os olhos fixos na Marcelina com uma intensidade que estava começando a me preocupar. Aquilo já não parecia mais apenas teatro para a Adelaide e eu não queria os meus amigos brigando.
- Meninos, não briguem! - A Marcelina disparou, estourando mais uma bola de chiclete que fez a Adelaide apertar os olhos como se tivesse gastura. Aquele chiclete, para desespero da minha governanta, tinha saído do decote da Marcelina assim que o jantar acabou. - Tem Marcelina pra todo mundo... ou para quem conseguir chegar primeiro.
A Adelaide se deu ao luxo de revirar os olhos e bufar. Depois de servir as bebidas ela desapareceu na cozinha. O Julian se empertigou, afrouxando a gravata com um mau humor visível.
- O que vocês acham de sairmos um pouco. Nós podemos levar as garotas para dançar. E o Andrey pode ir para casa. - O Julian sugeriu. - O que você acha, Baby?
- O que eu acho, Baby, é que está na hora de vocês irem bonitinhos para as suas casinhas. Eu vim passar a noite com a minha amiga. Não vou sair por aí. - A Marcelina piscou para nós.
- Estou dizendo a vocês dois que estamos perto de ultrapassar o limite da educação. Olha ali, a Lô e o Érick estão loucos para ficar sozinhos. E eu estou louca para me esparramar naquela cama enorme que está me esperando no andar de cima. - A Marcelina respondeu com graça.
- Você pode se espalhar na minha cama, tentação. Aposto que é maior que a do quarto de hóspedes do Albelini. - O Andrey sugeriu e o Julian se levantou depressa, puxando a Marcelina pelo pulso.
- Eu vou te acompanhar até a porta do seu quarto, Baby, antes que esse felino cheio de dentes tente te sequestrar. - O Julian segurou a Marcelina pela cintura.
Ela jogou um beijo em direção a Lorena e saiu rindo, sendo escoltada por um Julian possessivo e um Andrey que os seguia com o olhar, divertido com a situação e a chance de provocar o Julian.
Eu fiquei sozinho com a Lorena na sala. O silêncio que se seguiu foi carregado. Meu celular vibrou no meu bolso e eu o puxei. Uma notificação brilhava na tela: um relatório do sistema de monitoramento de sinais da mansão.
- O que foi? - A Lorena perguntou ansiosa.
- A Adelaide ligou para a Verônica. - Eu respondi, guardando o aparelho e fixando o meu olhar no dela. - Deu certo, Lô. O Simão terá a "bomba" dele amanhã pela manhã.
A Lorena suspirou, encostando a cabeça no meu peito. Eu a apertei com força. O plano estava em curso, mas eu sabia que, a partir de agora, o Conselho não viria apenas para nos questionar. Eles viriam para matar.
- Vamos subir. - Eu sussurrei. - Esta noite eu não quero mais pensar em plano, Conselho, Adelaide, nada disso. Quero só me perder no seu corpo e nos seus beijos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite