"Érick"
Eu observei a nova babá durante o almoço e a sensação de algo fora do lugar continuava ali, pesando sobre o ambiente. A mulher me parecia um poço de insegurança, como se estivesse sob acusação constante, como se tivesse medo de mim. Ao mesmo tempo, a forma como ela se conectou instantaneamente com Alice era inquietante.
A imagem da babá órfã e tímida, que combinava tão bem com o cheiro de açúcar mascavo e coco e a sua postura quase submissa estavam criando um curto-circuito na minha percepção. Eu nunca olhava para as minhas funcionárias. Mas essa babá, algo era incoerente. Por que eu não conseguia tirar os olhos dela?
Eu não sabia explicar a dualidade que eu sentia em relação àquela mulher, logo eu, que era tão bom em julgar o caráter das pessoas, conseguia lê-las com tanta facilidade, estava me sentindo na total escuridão com a Srta. Lorena Valente.
- Alice, suba com a Adelaide. Srta. Valente, me acompanhe.
Eu arrastei a cadeira com um som seco e saí da mesa, consciente de que estava sendo seguido pela Srta. Valente e o seu perfume de coco, açúcar mascavo e algo mais, um cheiro irritantemente inocente. Ela não parecia tão inocente quanto a sua roupa recatada, o cabelo castanho brilhante combinando com os olhos de um tom escuro e profundo e aquele cheiro de doce faziam parecer.
Eu parei à entrada do escritório e, com o polimento arraigado nos meus modos, recuei um passo para dar passagem à minha babá, ou melhor, a babá da minha filha.
- Entre, Srta. Valente.
No momento em que ela passou por mim, o mundo pareceu desacelerar, como se ela caminhasse em câmera lenta. Ela caminhava com a cabeça baixa, os ombros tensos, tentando desesperadamente ser a "sombra invisível" que a Adelaide exigia. Mas, ao cruzar o batente, o movimento do seu corpo deslocou o ar em minha direção. Eu me inclinei, quase sem perceber, deixando meus sentidos buscarem o rastro dela, o que parecia oculto sob aquela fachada.
Açúcar mascavo. Coco. Uma doçura quase infantil, doméstica, que me entediava e deveria me fazer ignorá-la. Mas havia algo por baixo, algo que meu cérebro insistia em associar a... a quê? Eu nem conseguia identificar a quê ela poderia ser associada. Talvez ela estivesse se esforçando demais para manter aquela imagem perfeita e servil que não parecia natural.
Eu fechei a porta devagar. O silêncio do escritório fazia parecer que estávamos em outro lugar, completamente isolados do resto do mundo, o cheiro de couro e madeira do meu lugar na casa pareceu ser invadido por aquela fragrância de doce de vitrine.
- Sente-se, Lorena. - Eu disse, testando outra vez nome dela na minha língua. Soava familiar de um jeito irritante, como um compromisso esquecido. - Vamos estabelecer os termos do nosso convívio.
Eu estava sentindo uma necessidade enervante de entender melhor o que estava me inquietando tanto naquela mulher. Se ela era apenas uma moça desesperada por um emprego ou se era o embuste mais bonito que já tinha atravessado os meus domínios.
Eu olhei para a pasta com o nome dela sobre a minha mesa, mas decidi ignorar a burocracia, eu tinha certeza de que o que eu queria saber não estava ali.
A verdade é que eu estava começando a ficar irritado, eu sempre fui um homem de pensamento lógico, raciocínio rápido, instintos aguçados, mas agora estava sendo traído pelos meus sentidos... um cheiro, um toque, um breve olhar, a escassez de palavras... eu precisava revelar a verdadeira Lorena Valente, a que estava por baixo daquela voz modulada, postura controlada, olhar baixo, porque eu tinha certeza que tinha algo sob aquela superfície polida.
- Olhe para mim enquanto conversamos. - Eu disparei assim que me sentei e soou mais como uma ordem que como um pedido.
O cheiro de coco e açúcar mascavo flutuou até mim de novo, eu poderia jurar que havia um aroma amargo sob as notas doces. Mas talvez fosse só ilusão, talvez eu estivesse com a cabeça em outro lugar, afinal, era quinta feira e eu vinha esperando a noite com ansiedade.
- Justo. Aprecio o seu ponto de vista. - Eu recuei, voltando ao tom impessoal, mas ela parecia ter encontrado coragem para sustentar o olhar. - Eu sei que a Adelaide já te advertiu sobre algumas coisas, mas você é a babá da minha filha e eu sou um pai presente, então você não poderá ser tão invisível quanto a Adelaide certamente sugeriu. Nós dois precisaremos conversar sobre as demandas da Alice.
- Sim, senhor, eu entendo. - Ela voltou ao tom tedioso e completamente submisso.
- Amanhã de manhã eu a apresentarei formalmente na escola da Alice. Esteja pronta às sete. E hoje, a Adelaide me informou que você precisa buscar seus pertences. De modo que, assim que a minha mãe pegar a Alice, você pode ir. Aos finais de semana, a menos que eu tenha um compromisso, o que não é muito comum, você está de folga, mas não se preocupe, eu aviso com antecedência e serei generoso com o tempo que exigir de você.
Ela murmurou algo incompreensível antes de agradecer.
- Ótimo. Eu não tolero atrasos, Lorena. E algo me diz que você é o tipo de mulher que sabe exatamente o valor do tempo. Pode ir.
Eu a dispensei, mas meus olhos não a deixaram enquanto ela caminhava até a porta. Quando o clique da tranca ecoou, eu soltei um suspiro que nem sabia que estava prendendo. O nome dela... Lorena Valente. Ele martelava na minha memória como um eco distante de algo a que eu não tinha dado importância. Mas o pior era que o rastro de coco e açúcar mascavo que ela deixou no meu escritório parecia uma provocação silenciosa.

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