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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 14

"Érick"

Eu observei a nova babá durante o almoço e a sensação de algo fora do lugar continuava ali, pesando sobre o ambiente. A mulher me parecia um poço de insegurança, como se estivesse sob acusação constante, como se tivesse medo de mim. Ao mesmo tempo, a forma como ela se conectou instantaneamente com Alice era inquietante.

A imagem da babá órfã e tímida, que combinava tão bem com o cheiro de açúcar mascavo e coco e a sua postura quase submissa estavam criando um curto-circuito na minha percepção. Eu nunca olhava para as minhas funcionárias. Mas essa babá, algo era incoerente. Por que eu não conseguia tirar os olhos dela?

Eu não sabia explicar a dualidade que eu sentia em relação àquela mulher, logo eu, que era tão bom em julgar o caráter das pessoas, conseguia lê-las com tanta facilidade, estava me sentindo na total escuridão com a Srta. Lorena Valente.

- Alice, suba com a Adelaide. Srta. Valente, me acompanhe.

Eu arrastei a cadeira com um som seco e saí da mesa, consciente de que estava sendo seguido pela Srta. Valente e o seu perfume de coco, açúcar mascavo e algo mais, um cheiro irritantemente inocente. Ela não parecia tão inocente quanto a sua roupa recatada, o cabelo castanho brilhante combinando com os olhos de um tom escuro e profundo e aquele cheiro de doce faziam parecer.

Eu parei à entrada do escritório e, com o polimento arraigado nos meus modos, recuei um passo para dar passagem à minha babá, ou melhor, a babá da minha filha.

- Entre, Srta. Valente.

No momento em que ela passou por mim, o mundo pareceu desacelerar, como se ela caminhasse em câmera lenta. Ela caminhava com a cabeça baixa, os ombros tensos, tentando desesperadamente ser a "sombra invisível" que a Adelaide exigia. Mas, ao cruzar o batente, o movimento do seu corpo deslocou o ar em minha direção. Eu me inclinei, quase sem perceber, deixando meus sentidos buscarem o rastro dela, o que parecia oculto sob aquela fachada.

Açúcar mascavo. Coco. Uma doçura quase infantil, doméstica, que me entediava e deveria me fazer ignorá-la. Mas havia algo por baixo, algo que meu cérebro insistia em associar a... a quê? Eu nem conseguia identificar a quê ela poderia ser associada. Talvez ela estivesse se esforçando demais para manter aquela imagem perfeita e servil que não parecia natural.

Eu fechei a porta devagar. O silêncio do escritório fazia parecer que estávamos em outro lugar, completamente isolados do resto do mundo, o cheiro de couro e madeira do meu lugar na casa pareceu ser invadido por aquela fragrância de doce de vitrine.

- Sente-se, Lorena. - Eu disse, testando outra vez nome dela na minha língua. Soava familiar de um jeito irritante, como um compromisso esquecido. - Vamos estabelecer os termos do nosso convívio.

Eu estava sentindo uma necessidade enervante de entender melhor o que estava me inquietando tanto naquela mulher. Se ela era apenas uma moça desesperada por um emprego ou se era o embuste mais bonito que já tinha atravessado os meus domínios.

Eu olhei para a pasta com o nome dela sobre a minha mesa, mas decidi ignorar a burocracia, eu tinha certeza de que o que eu queria saber não estava ali.

A verdade é que eu estava começando a ficar irritado, eu sempre fui um homem de pensamento lógico, raciocínio rápido, instintos aguçados, mas agora estava sendo traído pelos meus sentidos... um cheiro, um toque, um breve olhar, a escassez de palavras... eu precisava revelar a verdadeira Lorena Valente, a que estava por baixo daquela voz modulada, postura controlada, olhar baixo, porque eu tinha certeza que tinha algo sob aquela superfície polida.

- Olhe para mim enquanto conversamos. - Eu disparei assim que me sentei e soou mais como uma ordem que como um pedido.

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