"Lorena"
Eu entrei no quarto da Alice ainda com as pernas tremendo. O meu predador não tinha me reconhecido, mas eu ainda não estava confortável com aquela situação, eu era uma impostora naquela casa.
- O papai não gritou com você. - A Alice concluiu assim que a Adelaide saiu do quarto.
- Não, ele não gritou, mocinha. Agora vamos, deixe-me ver sua lição de casa. - Eu me aproximei e puxei a cadeira mais para perto dela.
A menina era esperta e tinha o sorriso fácil, estava curiosa sobre o que o pai havia falado comigo e estava muito ansiosa para ir para a casa da avó que, pelo que eu concluí, não tinha o tal "pulso firme" e deixava a neta fazer tudo o que quisesse.
No fim da tarde a Alice e eu já havíamos estabelecido uma certa camaradagem. A menina era esperta e tinha o sorriso fácil. Eu a ajudei a preparar a mochila e depois escovei o cabelo dela mais uma vez, enquanto ela se remexia na banqueta em frente a penteadeira. Às cinco da tarde nós estávamos na sala esperando pela famosa avó, que ao chegar recebeu da menina um abraço efusivo.
D. Heloísa tinha a mesma postura aristocrática do filho e os mesmos olhos azuis penetrantes, mas com uma suavidade que ele não possuía. Ela se apresentou com um sorriso gentil e caloroso, mas seus olhos me percorreram de cima a baixo fazendo uma análise detalhada.
- Você é muito jovem, Lorena, pensei que o Érick estivesse procurando alguém um pouco mais velha. - Ela comentou com um sorriso e a voz aveludada. - E também é bonita demais para ser invisível. Espero que Adelaide ou o mau humor do meu filho não a assustem. - Ela deu uma pequena gargalhada a diversão nos olhos dela era evidente.
- Não, senhora, eu não me assusto fácil. Espero apenas estar à altura das funções que me confiaram. - Eu respondi, mantendo a postura recatada e suave e o olhar baixo.
Ela anuiu, mas o estranhamento permaneceu no ar, ela não era ríspida, mas era observadora demais, o que me deixou em alerta.
- A Alice é um pequeno furacão, querida, mas tem um coração de ouro. - Ela fez uma pausa, e seu olhar brilhou com uma faísca de preocupação materna. - Só confesso que me surpreendi. Você é tão jovem e possui uma beleza muito marcante para... enfim. Espero que se sinta em casa, Lorena. Esta casa precisa de um pouco de luz, parece que você tem isso.
- Obrigada, senhora. Prometo dedicação total à sua neta. - Eu respondi com um sorriso afável e um meneio de cabeça.
- Tenho certeza que sim. - Ela tocou meu braço de leve, um gesto de carinho que me fez sentir a primeira pontada de culpa. A segunda veio com o abraço que a Alice me deu ao se despedir.
Eu escapei dali com o coração martelando. Entrei no taxi que já me aguardava e, conforme o carro se afastava do bairro nobre, eu senti como se a "doce babá" que eu incorporei se desintegrasse dentro de mim.
Mas era tarde para arrependimentos, eu aceitei o emprego como "Scarlat" e aceitei o emprego de babá, eu precisava de ambos porque as dívidas que o Carlos Eduardo deixou pareciam que nunca parariam de crescer... eu precisava sobreviver.
Antes de ir para a Infernal eu fui até a casa da Dalva tomar um banho e tirar a roupa da babá. Eu precisava negociar com o Barão, mas ele não poderia nem sonhar com o que realmente era o meu novo emprego ou ele usaria isso contra mim, eu tinha certeza.
Quando eu entrei na boate, antes das portas serem abertas para os clientes, o cheiro de álcool e cigarro impregnado nas paredes me atingiu. Depois de "vestir" a Scarlat e borrifar o meu perfume de absinto pelo corpo, eu fui até o escritório do Barão.
- O que isso significa, Scarlat? Você está se achando muito especial e querendo folga durante a semana? Nenhuma das garotas tem essa mordomia. - O Barão rugiu no escritório, a fumaça do charuto que ele fumava criando uma névoa desagradável entre nós.
Me fazer de coitada com o Barão e contar a minha história triste e o meu desespero para ele não o comoveriam, mas... sem perceber ele havia me dado o caminho das pedras. Ao dizer que eu estava me "achando especial" ele me fez lembrar da primeira noite em que atendi "O Trono" e como depois daquela ele sempre me mandava para lá, o camarote mais especial da casa. Eu decidi ser a Scarlat com ele, Abri um meio sorriso entediado e me sentei na cadeira a sua frente sem ser convidada.



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