"Lorena"
Eu encontrei a Marcelina andando atrás da Adelaide na cozinha e falando sem parar sobre maquiagens, cremes e o poder de um bom corretivo, tudo isso enquanto estourava bolas de chiclete como se fosse uma profissional. A Adelaide estava revirando os olhos, bufando e tentando se livrar da Marcelina com respostas ácidas que a minha amiga fingia que eram gentilezas.
- Lina, vou ter que roubar a sua agradável companhia da Adelaide. Ou nós não vamos para a piscina? - Eu sorri.
- É claro que vamos, Lô! - A Marcelina sorriu e passou o braço pelo ombro da Adelaide. - Adê, mais tarde eu te ensino mais umas coisinhas, se quiser eu até faço uma make bafônica em você. - A Marcelina estourou uma bola de chicletes bem na direção da Adelaide que fechou os olhos com irritação. - Vai que você dá sorte e conquista o motorista, hein?! Ele é um coroa bonitão...
- Deus me livre. - O Sr. Alberto, que vinha entrando na cozinha, falou baixinho atrás de mim e eu mordi o lábio para não rir.
- Não seja atrevida! - A Adelaide ralhou com a Marcelina. - Eu sou uma senhora de respeito! Não sou como você, uma pi...
- Adelaide! - Eu falei alto interrompendo a ofensa que ela ia proferir.
- Uma piadista que fica iludindo dois rapazes de família. - A Adelaide recuperou a compostura e a Marcelina riu.
- Adelaide, leva uma limonada na piscina pra gente, por favor. - Eu pedi. - Vamos, Lina.
- Adê, faz margaritas sem álcool naquelas taças lindonas com o limãozinho do lado e canudinho, tá?! - A Marcelina deu uma cotovelada na Adelaide. - Vamos, Lô.
A Marcelina e eu nos estiramos nas espreguiçadeiras perto do muro, de frente para a casa. Nós havíamos escolhido aquele canto perto do muro porque ali ninguém se aproximaria sem que víssemos. Eu contei a ela rapidamente tudop o que o investigador tinha descoberto e ela estava me olhando de boca aberta e os olhos brilhando de diversão.
Quando a Adelaide saiu pela porta com as bebidas, nós estávamos como donas da casa, com biquinis mínimos e óculos escuros aproveitando o sol. E assim que a Adelaide chegou a uma distância que poderia nos ouvir, a Marcelina se recompôs e mudou o assunto.
- Estou chocada, Lô... - A Marcelina começou, estourando uma bola de chiclete, só para ver o tique nervoso recém adquirido da Adelaide de fechar os olhos bem apertados em desagrado. - Você acha que o Carlos Eduardo vai sumir depois que pegar esse dinheiro ou vai continuar extorquindo o gostosão para manter o seu segredo?
Eu senti o olhar de Adelaide queimar de interesse.
- O Érick disse que não se importa com o valor, Lina. - Eu suspirei, fingindo tédio. - Ele disse que tem como retirar fundos da conta reserva da Holding para pagar esse silêncio. Se o Conselho descobre que eu ainda sou casada com um golpista, ele perde a presidência. O dinheiro é o de menos.
- Dez milhões... - A Marcelina assobiou baixo. - O gostosão faz qualquer coisa por você.
Eu cutuquei a Marcelina como se tivesse acabado de notar a Adelaide e dissesse para a minha amiga ficar quieta. A Adelaide nos serviu, sua irritação por fazer aquilo era óbvia. Ele deixou a bandeja sobre a mesa e se virou para mim.
- Se as senhoritas não precisarem de mais nada, eu vou voltar para os afazeres da casa. - A Adelaide avisou.
- Pode ir, Adê, se a gente precisar eu assobio pra você assim ó... - A Marcelina colocou dois dedos na boca e deu um assobio alto, desbloqueando um novo tique nervoso na adelaide que consistia em piscar os olhos rapidamente, fazer careta, encolher ombros e abanar a cabeça, tudo ao mesmo tempo.
A Adelaide se virou e saiu dali quase correndo, enquanto nós duas caímos na risada. Assim que ela sumiu a Marcelina se livrou do chiclete em um guardanapo de papel e se virou para.
- Tomara, Lô. - A Lina apertou a minha mão.
- Eu vou te dar um dinheiro, pra te ajudar até você encontrar outro emprego, afinal você ficou desempregada por minha culpa.
- Lô, não precisa. Eu já devia ter saído da boate há muito tempo. A Dalvinha tem razão, sabe. Para os outros, servir mesas naquele lugar nunca é só servir mesas. - A Lina olhou para o outro lado. - E eu já estou com uma coisa engatilhada, não vou ficar sem trabalhar muito tempo.
- Promete que se precisar vai falar comigo? - Eu pedi e ela fez que sim. - Lina, o Julian está bem entusiasmado...
- Lô, sem a menor chance! Uma coisa é irritar a bruxa irritante, outra bem diferente é levar aqueles dois à sério. Não dá! - Ela se virou para mim e tirou os óculos. - Eu não sou como você, Lô. Eu não fiz uma faculdade, não tenho esse seu jeito doce, como o Albelini diz. Eu não me encaixo no mundo deles.
- Isso é uma bobagem, Lina. Falando assim, você está parecendo a Adelaide e o Simão. - Eu chamei a atenção dela e ela riu. - Lô, vai por mim, nunca daria certo e eu só ia me machucar.
- Tá, eu não vou insistir. Eu acho o Julian um cara muito bacana. O Andrey também, mas você e o Julian tem química. - Eu insisti.
- Talvez eu experimente a física entre nós e as línguas... mas eu ainda estou pensando se vale a pena dar uma mordidinha. - Ela riu.
- Lolôôô! - A Alice passou correndo pela porta e se atirou sobre mim na espreguiçadeira. - Eu morri de saudade!

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