"Adelaide"
Eu estava ansiosa para ter notícias da reunião do Conselho. Eu tinha certeza que o Conselho faria o Sr. Érick voltar à razão e colocar aquela babá na rua. É claro que ele não trocaria a nobraza dele por um rabo de saia.E eu assistiria de camarote a derrocada dessa oportunista. Mas estava demorando, nem o Sr. Érick tinha voltado para casa e nem a D. Verônica havia me ligado com as novidades.
Eu segurei a bandeja de prata com ódio, eu ainda estava servindo chá para aquelas duas mulheres desqualificadas. E isso era ainda mais humilhante, agora eram duas, não apenas uma, aquela tal amiga, parecia que nunca mais iria embora. Como se não bastasse, o calor daquela tarde parecia o prenúncio do próprio inferno.
Eu caminhei até o solário e comecei a servir o chá para a D. Heloísa, a pequena Alice, a babá e... aquela criatura que parecia até uma vaca mascando. Olhei de relance para a criatura que usava um vestido curto que desafiava a decência, se ele subisse mais um centímetro... e ela mastigava aquela goma de mascar vulgar com a boca aberta, olhando para mim como se eu fosse um animal em um zoológico. Como o Sr. Érick permitia que o nome dos Albelini fosse chafurdado na lama por pessoas daquela estirpe era algo que eu jamais entenderia.
- Tá me olhando assim por que, Adê? Está pensando no quanto vai sentir minha falta? - A Marcelina me perguntou com aquele deboche irritante.
- Quer saber, mocinha, já que você perguntou, acredito que esse seu vestido não seja apropriado para usar na presença de uma dama tão distinta quanto a D. Heloísa, está quase mostrando a cor da sua lingerie. - Eu falei com o máximo de calma que consegui.
- Hã-hã. Fica tranquila, Adê, você não vai ver a minha calcinha. - Ela riu, mostrando todos aqueles dentes e fez um sinal para que eu me aproximasse e me abaixasse. Então ela falou no meu ouvido, mas não baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse: - Adê, eu não uso calcinha.
Eu me ergui assombrada com o descaramento dela, olhei para a D. Heloísa com os olhos estatelados, a Alice estava à mesa, mas a D. Heloísa escondeu-se atrás da xícara de chá. Eu estava prestes a invocar a moral e os bons costumes esquecidos naquela casa, mas um som estridente cortou o ar. O meu celular, escondido no meu bolso, começou a tocar.
A D. Heloísa abaixou a xícara com uma sobrancelha erguida. Eu senti o meu rosto queimar de vergonha, isso nunca havia acontecido. Antes que eu pudesse enfiar a mão no bolso para desligar, a Lorena me encarou. A doçura de babá que ela fingia ter havia desaparecido, a sua voz veio firme, fria e cheia de uma autoridade que ela não tinha o direito de exercer naquela casa.
- Adelaide, as regras da casa são claras, você deve manter o celular no silencioso durante o expediente. - Ela chamou a minha atenção, com uma calma que me irritou profundamente e me deixou sem reação. - Pode ir atender. Está dispensada do serviço por agora.
Eu engoli em seco, sentindo o olhar severo da D. Heloísa sobre mim. A humilhação de receber uma bronca daquela babá na frente da matriarca da família foi como um tapa.
- Peço desculpas, Srta. Lorena. Com licença. - Eu murmurei entre os dentes.
- Pois então, Adelaide, você foi feita de fantoche por duas mortas de fome golpistas! - A D. Verônica gritou.
- Não... não pode ser... - Eu sussurrei, sentindo uma náusea terrível. - Eu ouvi perfeitamente. D. Verônica, a senhora pode confiar em mim, eu não a traí! Eu estou defendendo a dinastia Albelini e tentando ajudar os Albuquerques, duas linhagens nobres dessa sociedade.
- Eu posso confiar, Adelaide? Será? Então, descubra o que aconteceu o quaznto antes e me arrume um podre dessa... babá... ou eu garanto que você não terá emprego nem para jogar comida aos pombos nesta cidade! - Ela ameaçou, desligando na minha cara.
Eu olhei para a tela apagada, o meu peito subindo e descendo, a sensação de queimação subindo pelo meu pescoço. A verdade me atingiu como um soco no estômago. Elas sabiam. A babá sonsa e a marginal da goma de mascar sabiam que eu estava atrás da porta. Elas armaram cada palavra daquele jantar. Mas por quê? Ninguém sabia da minha aliança estratégica com a Sra. Verônica. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo.
Guardei o celular no bolso, tomando o cuidado de colocá-lo no silencioso, sentindo as minhas mãos suarem frio. Eu odiava aquelas duas oportunistas. O que elas estavam pensando? Estavam achando engraçado me fazer de piada, pois agora elas veriam do que eu era capaz. Eu jogaria no mesmo nível que elas.
Eu respirei fundo, ajeitei o meu uniforme e engoli as lágrimas de humilhação. Dei meia-volta e caminhei de volta. Eu ia voltar ao trabalho, ia continuar servindo o chá delas com a cabeça erguida, mas eu cobraria caro cada humilhação. Eu ia encontrar o podre real daquelas duas e se não encontrasse, eu fabricaria um.

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