"Lorena"
O som da porta do quarto se abrindo devagar fez o meu coração palpitar no peito, eu estava esperando o Érick voltar completamente furioso depois de descobrir a verdade pelo Julian. Mas eu relaxei os ombros quando abri os olhos e vi a silhueta da Alice passando pela porta.
Ela carregava uma bolsinha cor de rosa e um sorriso enorme, correndo direto para a cama e se jogando entre os meus braços. Naquele momento eu senti um pouco de paz, com a minha menina me enchendo de beijos e carinhos.
- O Tio Beto me disse que você não foi me buscar porque está doentinha. É dor de barriga? - A Alice perguntou com as sobrancelhas franzidas, com os espertos olhinhos azuis transbordando preocupação. - Eu tenho dor de barriga às vezes e não gosto.
- Eu também não gosto de ter dor de barriga, minha menina. - Eu sorri. - Mas não foi dor de barriga não, foi dor de cabeça e eu já estou melhor.
- Ah, que bom! Não quero que você fique doente. - Ela decretou.
- E o que você está trazendo nessa bolsinha como se fosse um segredo? - Eu perguntei e ela deu aquela risadinha.
- Mas é um segredo. - Ela falou baixinho e abriu a bolsinha. - Olha, Lolô! O Tio Beto me deu chocolate! Mas o papai e a Sra. Adelaide não podem saber porque doce estraga os dentes. - A Alice cochichou no meu ouvido, me fazendo soltar uma risada trêmula. - E ele mandou esse aqui para você.
Ela tirou uma barra de chocolate meio amargo da bolsinha e me entregou. Pregado na barra havia um bilhetinho pequeno: "A vida é como chocolate, mesmo que às vezes seja meio amarga, ainda é boa."
Eu passei os dedos sobre a caligrafia elegante do Alberto e sorri. Era uma gentileza que significava muito para mim. E então eu me dei conta de uma coisa, o Alberto não tinha avisado ao Érick que o Julian havia aparecido na escola, porque se ele tivesse avisado o Érick teria comentado. Mas o estranho mesmo era que o Alberto sempre contava tudo o que saía do programado, para o Érick e contava imediatamente.
Eu guardei o chocolate e o bilhete na gaveta da mesinha de cabeceira com aquela sensação de que algo estava fora de lugar, eu perguntaria ao Alberto depois porque ele não contou.
Eu comecei a conversar com a Alice sobre como tinha sido a escola. Ela sempre contava com empolgação, como se as manhãs dela fossem cheias de aventuras.
O Érick entrou no quarto no momento em que eu sorria para a Alice. O meu coração pulou uma batida e eu prendi a respiração, mas no instante seguinte eu notei o semblante dele muito mais leve do que quando ele saiu do quarto. O que estava acontecendo? Eu estava esperando uma batalha, mas ele parecia... feliz.
O Érick se aproximou, sentando-se na borda do colchão e puxando nós duas para um abraço apertado. Ele depositou um beijo demorado no topo da minha cabeça e depois na testa da filha.
- O que as minhas meninas estão confabulando aqui? - Ele perguntou carinhosamente e a Alice me olhou pelo canto dos olhos.
- O Tio Beto contou que a Lolô estava doentinha e eu vim fazer visita de médico, papai. - A Alice falou, fechando a bolsinha rapidamente.
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