"Julian"
A Lorena me olhava em absoluto estado de choque. Eu assisti ao exato momento em que as cores voltaram ao rosto dela e a respiração que ela estava prendendo escapou em um suspiro quase doloroso. Os olhos dela continuavam arregalados, mas o pânico puro tinha dado lugar a uma confusão monumental.
Eu sabia o que ela estava pensando. Ela estava tentando decifrar o porquê de eu, o homem que havia prometido encontrá-la no inferno poucas horas antes, estar estendendo a mão para trazer a sua cúmplice para ser o seu apoio ao invés de delatá-la.
O que a Lorena não sabia, sequer poderia sonhar, era que a ligação que interrompeu a nossa conversa no bistrô havia mudado as regras de todo o jogo. Eu ainda era totalmente leal ao Érick, mas depois de ver e ouvir tudo o que me foi dito, eu entendi que era melhor para o Érick que eu mantivesse o segredo da Lorena, pelo menos por enquanto.
Trazer a Marcelina para dentro da casa do Érick era uma jogada que eu mesmo não teria pensado, mas quem estava protegendo aquelas duas as queria juntas, então eu faria o que foi sugerido e aproveitaria para entender melhor tudo aquilo.
- Eu achei essa ideia fantástica! - A D. Heloísa comentou empolgada ao meu lado. - Eu gostei daquela moça, tão autêntica! E vai te fazer muito bem, Lorena. Você está passando tempo demais trancada dentro desta casa. Eu entendo que não podemos chamar a atenção do Conselho agora e que tem gente de olho nos seus movimentos, mas você precisa sair um pouco, pelo menos ir me visitar.
- Você tem razão, mãe. Nós vamos dar um jeito nisso. - O Érick se virou para a Lorena. Eu tinha que admitir, eu nunca havia visto o meu amigo daquele jeito, protetor, sorridente, apaixonado. - Gostou da novidade, Fada?
- Eu... eu adorei, mas não sei se a Lina vai aceitar... - A Lorena respondei ainda atordoada com o rumo que as coisas estavam tomando.
- Ah, ela vai aceitar, Lolô! Vai aceitar porque eu estou indo buscá-la e vou convencê-la. E você, nem pense em alertá-la. Ela é capaz de fugir de mim. - Eu respondi com um sorriso confiante, porque aquela mulher não ia fugir de mim.
- O Julian me deu essa ideia no escritório, Lô. - O Érick interveio com um sorriso largo. - No meio de tanta pressão, eu achei excelente que você tenha a sua melhor amiga por perto. Ela vai ter um salário oficial, crachá de secretária e autoridade para mandar a governanta calar a boca, mas isso você também pode fazer e sabe disso.
- Eu... eu não sei o que dizer. - A Lorena gaguejou, olhando de relance para a D. Heloísa, que apenas sorria, mantendo aquela aura impenetrável de rainha. - O Julian... foi muito generoso em pensar nisso.
- Eu só penso no bem-estar da família, Lorena. - Eu respondi e olhei fixamente para ela. - Tenho certeza de que a Marcelina vai ser de grande ajuda... e eu vou saber aproveitar o momento.
- Ótimo! Está resolvido então. - O Érick decretou, batendo com a mão na mesa com a satisfação de quem resolve um problema de logística.
- Então, família, se me dão licença, eu estou indo para a vila tomar um cafézinho com a Dalva e entregar o contrato de trabalho da Marcelina. - Eu comentei, me levantando da mesa e ajeitando o paletó. - Com licença, D. Heloísa. Lorena. Lili, mais tarde nós vamos montar aqueles blocos.
- Julian, posso ir com você? - A Lorena perguntou de repente. Eu via a ansiedade nos olhos dela.
- Não, Lorena, eu quero pegar a Marcelina de surpresa e aproveitar um tempinho a sós com ela. Você entende, não é?! - Eu sorri. - Mas vem, me acompanhe até o carro e me dê uma dica de como impressionar a sua amiga. Você me deve isso.

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