"Marcelina"
Eu ainda conseguia sentir o nó na garganta do choro que engoli no apartamento do Julian ontem à noite. Aquele riquinho mimado. O que ele pensava? Que a vida era feita de brigadeiro? Ele esfregou na minha cara o motivo de eu nunca ter aceitado as investidas dele. Ele vivia naquele mundinho cheio de preconceito e que tratava pessoas como eu como seres inferiores.
Depois de falar com a Lorena, eu passei a manhã trancada no meu quarto na vila, encarando o teto, com o estômago revirado de medo de receber uma ligação da Lorena dizendo que o Albelini a havia escorraçado da vida dele por causa do fofoqueiro do Julian. Por mais que eu tivesse feito tudo para protegê-la, eu não sabia se o nosso anjo da guarda conseguiria enfiar na cabeça daquele engomadinho que o segredo era para o próprio bem do amigo dele.
Eu precisava saber notícias da Lorena e o silêncio do meu celular estava me matando lentamente. Para tentar não enlouquecer, decidi dar uma faxina na casa, eu precisava me ocupar ou iria parar naquela casa. Eu estava descalça, com um short jeans desfiado e uma camiseta velha amarrada na cintura, passando um pano úmido no chão da pequena sala, quando o som metálico de uma batida firme na porta me tirou dos meus pensamentos.
- Já vou, Dalvinha! - Eu joguei o pano no balde, caminhei até a porta e a puxei, esperando encontrar a Dalva do outro lado.
O ar faltou nos meus pulmões. O meu coração bateu no meu peito como a bateria de uma escola de samba.
Julian Beaumont estava parado na minha porta. Vestido com o seu terno impecável de alta costura, o cabelo perfeitamente alinhado e o relógio caro brilhando sob o sol da tarde da vila. Ele parecia um príncipe europeu que havia errado o caminho e caído direto no meio dos plebeus mais pobres. Mas os olhos dele não tinham nada de pacíficos como se esperava de um príncipe, eles exibiam a certeza de um carrasco prestes a executar a sentença de morte e me fez bater a porta na cara dele por puro instinto.
- É assim que você me recebe, Baby? Depois de todo o nosso lance? - O Julian abriu a porta, entrou e fechou a porta atrás de si, com uma ocnfiança irritante.
- Baby... - A minha voz falhou, mas recuperei o deboche para camuflar o pânico de que ele estivesse ali para dizer que havia acabado com a vida da Lorena. - O que é isso? Você estava entediado no seu castelinho e veio tentar humilhar os pobres de novo?
Ele deu um passo em minha direção, o maxilar travando.
- Eu nunca te humilhei, Marcelina. - Ele parou bem pertinho de mim, a voz baixa, firme, e com uma calmaria que me deixou em pânico.
- Nunca? - Eu dei um riso seco. - Esse é o seu ponto de vista. Sai da minha casa! Você não vai entrar na minha casa para fazer as suas ameaças, engomadinho! - Eu rebati, cruzando os braços, mantendo a cabeça erguida. - Se veio aqui para dizer que entregou a Lô para o Albelini, fala de uma vez e sai daqui. E não voltas mais.

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