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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 171

"Julian"

Eu não fazia promessas em vão e não perderia uma oportunidade sequer de desarmar a Marcelina. Eu queria aquela mulher há muito tempo e eu sempre conseguia o que queria. Eu me comportei durante o jantar, a deixei pensando que eu estava dando uma trégua, mas a verdade era uma só: eu estava preparando o meu próximo passo.

O relógio de cabeceira marcava duas da manhã quando eu peguei a garrafa de champanhe que tinha confiscado da adega do Érick e duas taças de cristal. Saí para o corredor da mansão sem fazer barulho, vestindo apenas uma calça de moletom. Quando cheguei diante da porta da Marcelina e girei a maçaneta, o trinco não cedeu. Trancada. Ela tinha aprendido a lição da noite anterior muito depressa e eu daria um jeito de quebrar esse trinco no dia seguinte.

Mas, um trinco não ia me impedir. Um sorriso de canto surgiu no meu rosto. Tirei o celular do bolso, abri o novo contato salvo como “Baby” e disquei. Não deu nem dois toques.

- Beaumont, se você estiver do lado de fora da minha porta, eu juro que eu vou... - A voz dela veio num sussurro furioso e rouco de sono.

- Se desligar eu vou te ligar a noite inteira. Agora abre a porta, Baby. - Eu cortei, encostando o ombro na madeira do portal. - Eu trouxe o champanhe que prometi. E nós temos o que comemorar. O Mendes está oficialmente fora do tabuleiro, você foi fantástica, merece os parabéns. Eu agora tenho o seu número.

- QUe arrependimento! Isso que dá fazer as coisas por impúlso. - Ela reclamou. - Eu já disse para ir comemorar nos seus sonhos. - Ela respondeu naquele sussurro enfurecido que eu estava achando sexy demais.

- Se eu tiver que abrir essa garrafa sozinho no corredor, o estouro da rolha vai atrair a assombração da Adelaide. E eu tenho certeza de que você não quer a governanta puritana fiscalizando o comprimento do seu pijama a essa hora. Porque ele é curto, Baby, muito curto. - Eu usei o tom de barganha que ela tanto odiava. - Uma taça. Negócios. Ou eu vou pensar que você está com medo.

- Medo? De você, engomadinho atrevido? Nunca!

Houve um silêncio irritado do outro lado da linha, seguido pelo clique nítido da fechadura girando por dentro. A linha caiu. Eu abri a porta devagar e deslizei para dentro. O quarto estava iluminado apenas pelo abajur de luz âmbar na mesa de cabeceira. A Marcelina estava de pé no meio do quarto, com as mãos nos quadris, usando um camisetão preto que ia até o meio das coxas e deixava as pernas totalmente expostas. Os cabelos escuros estavam desalinhados, caindo pelos ombros, e os olhos me fuzilavam.

- Você é um chato insistente, sabia? - Ela sibilou, mas não recuou quando eu me aproximei.

- Persistente, Baby. - Eu respondi e dei um selinho nela que ela não esperava, a deixando sem reação.

Eu coloquei as duas taças na cômoda e retirando a gaiola de arame da rolha do champanhe , enquanto observava a Marcelina se recobrar do cheque pelo meu atrevidmento. Com um estalo abafado eu tirei a rolha da garrafa e servi as duas taças, estendendo uma para ela.

- A dose do pecador, Baby! - Eu ergui as sobrancelhas para ela.

A Marcelina encarou a taça, depois olhou para mim, estreitando os olhos antes de aceitar.

- Ao rabo do Mendes. - Ela brindou com ironia, batendo de leve a taça na minha.

- À nossa parceria. E ao que virá com ela. - Eu corrigi, dando um gole lento, mantendo meus olhos fixos nos dela.

Nossos lábios se roçaram. Foi um toque leve, uma faísca que fez o meu coração bater no peito com uma força que eu não sentia há anos. Eu ia puxar a cintura dela para colar de vez as nossas bocas, quando a Marcelina, num reflexo puramente defensivo e rápido, virou o rosto no último milésimo de segundo. O meu beijo pegou na bochecha dela, rente à orelha.

Antes que eu pudesse processar, ela usou a mão livre para empurrar o meu peito com força, dando uma risada anasalada, embora estivesse tão arfante quanto eu.

- Quase, Baby. Seja mais rápido da próxima vez. - Ela debochou, os olhos brilhando com o triunfo de ter me parado na linha de chegada. Ela pegou a minha taça na cômoda e a empurrou contra o meu peito, junto com a garrafa. - O seu tempo acabou. Uma taça, lembra? Agora, fora do meu quarto antes que eu mude de ideia sobre a joelhada.

Eu encarei aquela mulher por alguns segundos, com a respiração descompassada e um sorriso de puro fascínio nos lábios. Ela era impossível. E aquilo só me deixava mais obcecado.

- Você ganhou esse round, Baby. - Eu fui andando de costas até a porta. - Mas eu tenho muita paciência para terminar o que comecei e ver esse fogo crepitar.

- Vá dormir, Beaumont! - Ela bateu a porta na minha cara. O som da tranca correndo soou logo em seguida.

- Durma bem, Baby... se você conseguir. - Eu sussurrei do lado de fora da porta.

Eu fiquei no corredor escuro, olhando para a madeira, sentindo o gosto dela na ponta dos lábios, aquela sensação de quase lá que deixava a boca formigando. Eu estava completamente ferrado. E a melhor parte é que eu estava adorando cada segundo daquela ruína que aquele tsunami ia provocar em mim.

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