"Lorena"
Eu percebi o olhar do Julian queimar do outro lado do círculo, a mão dele provavelmente já se preparando para segurar a Marcelina antes que ela voasse no pescoço do Simão. Mas eu não precisei da ajuda de ninguém. Respirei fundo, endireitei os ombros e dei ao Simão o sorriso mais cínico e doce do meu repertório.
- É possível que tenhamos nos esbarrado em algum evento corporativo, Conselheiro Simão. Como o senhor sabe, eu tinha uma empresa, mas fui roubada por um canalha que usa as mulheres e me traiu com uma que eu considerava amiga. O senhor não acha que homens que traem suas mulheres são cretinos imorais que não merecem qualquer consideração? Porque, veja bem, um homem que é capaz de mentir, trair e roubar a mulher que dorme ao seu lado... esse homem é capaz de qualquer atrocidade. O senhor não acha? Tenho certeza que a sua esposa concorda comigo. - Eu respondi, a voz saindo firme, clara, sem um único tremor. O Simão fechou o sorriso e engoliu em seco.
- Eu realmente concordo com você. - A esposa dele se manifestou, para a minha surpresa. - Eu soube do que aconteceu com você, Lorena. Uma verdadeira tragédia. Que bom que você encontrou o Érick. O Apoio de um homem justo. Eu espero que aquele homem que a enganou pague pelo que fez.
- Ah, senhora, eu também espero. Espero que todos esses canalhas que traem as esposas sejam atirados ao purgatório. Não tem perdão para eles. - Eu respondi, vendo o Simão perder a cor e a esposa dele concordando comigo. Ele limpou a garganta, se recuperando.
- Talvez você tenha dado a ele motivo para te deixar. Algumas mulheres, Lorena, são insidiosas, cegam os homens, fingem ser o que não são. Às vezes fingem inocência demais e levam os homens a se equivocar. E aí é natrural que eles as deixem quando percebem que foram enganados. Não estou dizendo que é o seu caso, mas talvez ele tenha se... decepcionado, esperado algo que não era real. - O Simão não se deu nem ao trabalho de sorrir.
Um silêncio pesado caiu sobre o nosso pequeno círculo. O corpo do Érick ao meu lado tencionou ainda mais, de um jeito que eu soube, com absoluta certeza, que ele estava a um milímetro de estraçalhar o Simão ali mesmo, no meio do salão.
Eu olhei fixamente para o Simão. Sustentei aquele olhar de cobra sem piscar, deixando que a doçura da Lorena recuasse apenas o suficiente para que a autoridade impositiva que eu tinha aprendido nos camarotes da boate assumisse o controle. Dei um sorriso calmo, quase penalizado.
- É, existem mulheres assim. O senhor, com toda a sua experiência, deve conhecer várias. - Eu respondi, a voz saindo mansa, pausada, fria como uma noite de inverno. - Mas o senhor está cometendo um erro clássico de homens da sua idade que acham que podem controlar tudo ao seu redor. A verdade é que homens arrogantes assim são enganados pelo próprio ego. E se esquecem de que escondem muita sujeira debaixo do tapete. E às vezes, julgam os outros pelos próprios pecados que cometem. Me diga, Conselheiro, o senhor tem algum pecado a confessar? - Eu sorri docemente para ele.
O rosto do Simão mudou de cor instantaneamente. O maxilar dele travou com tanta força que uma veia saltou na sua têmpora. Ele tentou abrir a boca para rebater, mas as palavras pareceram morrer na sua garganta. O blefe dele tinha sido totalmente desmantelado, já o meu, parecia ter sido de uma eficiência admirável.
O Érick me encarava de cima, e a expressão no rosto dele era uma mistura avassaladora de choque, desejo e orgulho.
- Uma língua afiada para uma moça tão jovem. - O Simão se recuperou e rebateu entre os dentes, estreitando os olhos.
- Uma língua que sabe exatamente quando falar e quando guardar segredos, Conselheiro. - Eu retruquei, sustentando o olhar dele com uma audácia que eu só usava na Infernal. - Afinal, no Grupo Albelini, quem não sabe cuidar do próprio telhado de cristal acaba ficando sem teto por jogar pedra no telhado alheio. Não é verdade, meu amor?
- Com certeza, Fada! - A voz do Érick veio como um trovão baixo, rouca de pura excitação.

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