"Lorena"
Depois do jantar do Conselho nós passamos o fim de semana inteiro esperando que o Simão aparecesse ou fizesse qualquer movimento. E quanto mais o tempo passava, mais certa eu ficava de que o Simão não poderia me alcançar. De algum jeito o meu passadona boate parecia nunca ter existido. Mas eu não estava menos ansiosa, porque assim que toda aquela confusão do Conselho estivesse controlada, eu contaria ao Érick sobre a Scarlat. Então, eu só podia esperar e pedir que ele compreendesse a situação na qual eu estava.
O Conselho se reuniria na quarta feira, o que significava que os conselheiros entregariam oficialmente as suas ações e o Érick conheceria o novo sócio oculto. O Érick, o Julian e o Andrey tinham passado o fim de semana trancados no escritório de casa, afogados em relatórios internacionais, tentando quebrar a criptografia da holding que havia comprado as ações dos outros conselheiros. Mas era como se eles estivessem caçando um fantasma, não conseguiam chegar a lugar nenhum.
Nós não poderíamos perder tempo, precisávamos lidar com o Simão antes da próxima reunião. Por isso, na tarde de segunda, a Marcelina e eu já estávamos prontas para a nossa última batalha. Nós enfrentaríamos o Simão e isso seria muito pior do que ter enfrentado os outros membros do Conselho.
Nós já estávamos no escritório do Érick no Grupo Albelini ajustando os últimos detalhes do que faríamos.
- E se o Simão também já tiver vendido as ações dele para esse novo sócio misterioso? - Eu perguntei de repente. - Isso tornaria a nossa ofensiva desnecessária.
- O Simão jamais venderia as ações dele, Lô. Não sem um bom motivo, que é o que nós temos para dar a ele. Ele gosta demais do poder que tem no Grupo Albelini. - O Érick me respondeu com a certeza de quem conhecia o oponente.
- Então nós vamos enfrentar a fera. Tem certeza de que ele vai estar no escritório agora a tarde, Baby? - A Marcelina perguntou, percebendo que eu estava preocupada.
- Ele já está aqui. E eu me encarreguei de soterrá-lo em relatórios, para que ele fique preso na salinha dele. - O Julian sorriu.
Por alguma razão dessa vez eu tinha um pressentimento ruim. Eu olhei para a Marcelina, desta vez, ela não usava o uniforme customizado. Vestia um terninho de alfaiataria preto ultrajusto, com um decote audacioso e saltos agulha que ecoavam no piso quando ela andava.
- Homens como o Simão não aceitam um desaforo. Ele não vai simplesmente nos deixar em paz. - Eu dei voz aos meus pensamentos sem perceber. Aquela lição eu havia aprendido na boate.
- Você acha que ele vai pagar para ver? - O Andrey perguntou.
- O Simão vai entregar as ações, eu não tenho dúvida. Mas se ele vai nos deixar em paz é outra história. - Eu respirei fundo.
- É por isso que temos que agir rápido, Lorena. O Conselho está desmantelado. Se nós não lidarmos com o Simão hoje, ele vai ter tempo de pensar e descobrir que estamos indo atrás dele. Ele vai se prevenir. - O Julian olhou nos meus olhos. - Não dá para recuar agora.
- Eu sei. - Eu respondi e senti os olhos do Érick me analisando.
- Lô, se você acha que é demais para você, está tudo bem, deixa o Simão comigo. - O Érick apertou a minha mão, me fazendo olhar para ele.
- Não. Eu termino o que eu começo. - Eu respondi e fiquei de pé. - Vamos, Marcelina? É hora de cortar a cabeça da serpente.
- Tem certeza, Lô? - O Érick se levantou e segurou o meu rosto procurando por um sinal de hesitação.
- Ah, que mal educado! - A Marcelina se aproximou e se sentou sobre a mesa do Simão cruzando as pernas. - Não te ensinaram a tratar duas damas, Simão?
- Damas?! - Ele bufou, abrindo um sorriso de escárnio. - Vocês são duas ninguém, que só Deus sabe de onde saíram e aqueles três idiotas estão deslumbrados com os seus rostinhos bonitos.
- Quanta gentileza! - Eu sorri. - Pode ligar, Simão. Vai, liga para o meu Albelini. Diz para ele colocar a "cadelinha na coleira". Vamos ver quanto tempo você ainda vai respirar depois disso. - Eu caminhei até a mesa dele com uma calma que o deixou visivelmente perturbado. Coloquei a prancheta em cima dos papéis dele com um estalo seco. - Ligue para o Érick. Mas antes, me diga: a sua esposa já contratou o advogado de divórcio ou ela vai usar o mesmo que o Mendes usou?
O Simão congelou com o telefone fixo na mão. O rosto dele passou do pálido para um tom cinzento.
- Do que você está falando, sua... - Ele estava vermelho como um peru pronto para ser abatido.
- Ah, corta o teatrinho, velho assanhado. - A Marcelina o interrompeu, saltando da mesa e se sentando de forma folgada na cadeira de couro do próprio Simão, o deixando de queixo caído. - Anda, Simãozinho, coloca esse telefone no gancho e vamos ter uma conversinha entre amigos.
O Simão bateu o gancho do telefone com tanta força que eu pensei que o aparelho fosse desintegrar. Ele respirava de forma irregular, as mãos espalmadas sobre a mesa, tentando inutilmente nos intimidar. Ele olhava para a Marcelina na sua cadeira e depois para mim, os olhos injetados de puro ódio.
- Vocês acham que são espertas, não é? - Ele rosnou, inclinando-se na minha direção. - Eu sei quem você é, Lorena. Uma golpista que se esconde atrás de uma cara de santa. Eu vou revirar o seu passado até encontrar o esgoto de onde você saiu!
- Você pode tentar, Simão. Mas o problema é que o seu tempo acabou. Você não está nem um pouquinho curioso para saber o que nos trouxe aqui? - Eu respondi, mantendo a voz mansa, quase entediada. Era óbvio que a ameaça dele tinha gelado a minha espinha, mas eu não demonstraria medo diante do meu inimigo, a Scarlat nunca faria isso.

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