"Lorena"
A Marcelina e eu alcançamos o Julian no elevador, o sorriso dele era o de quem sabia que tinha a vitória nas mãos antes mesmo do jogo começar.
- Se vocês fizeram com os outros a metade do que fizeram com o Simão, eu entendi agora porque eles estavam fugindo de vocês durante o jantar do Conselho como coelhos assustados. - O Julian comentou com uma pitada de orgulho na voz. - Vocês duas são realmente uma dupla explosiva.
- Assistiu tudinho, Baby? - A Marcelina se pendurou no ombro do Julian com uma familiaridade que vinha dos tempos da boate.
- E ouvimos cada palavra. Essa belezinha de câmera no seu pingente tem uma resolução tão boa que eu consegui contar as rugas de preocupação do Simão. - O Julian respondeu e se empertigou, sinalizando que o Simão estava indo em nossa direção.
O Simão se aproximou, ignorando totalmente a Marcelina e eu e encarando o Julian ferozmente. Ele trazia nas mãos uma maleta de couro e apertou o botão do elevador sem esconder a sua fúria.
- Um golpe tão baixo só poderia vir do cachorrinho fiel dos Albelini, não é mesmo, Beaumont?! - O Simão cuspiu as palavras.
- Ah, Simãozinho, antes ser um cachorrinho fiel que uma besta traidora como você. A filha do seu amigo, Simão?! la tinha o quê... dezesseis ou dezessete anos quando esse casinho sórdido começou? Francamente, isso é demais até para você. - O Julian respondeu afiado.
- Isso não é da sua conta! - O Simão se aproximou do Julian com o dedo em riste e os olhos injetados de ódio. - Eu fiz o que vocês queriam, não fiz?! Agora não se mete na minha vida.
- Eu não estou nem aí para você ou o seu amigo falido que vive de aparências e por isso deve fazer vista grossa dessa sordidez, e também acho aquela mulher uma criatura detestável. Então, Simão, some das nossas vidas e nós sumimos da sua. - O Julian bateu no ombro do Simão com uma falsa camaradagem. - Vai pra casa mais cedo hoje? Ou vai para aquele apartamentinho pitoresco abrir a primeira garrafa de champanhe?
- Ora seu...
Mas o Simão não teve tempo de proferir uma ofensa, a porta do elevador se abriu e o Julian fez um aceno de cabeça indicando o elevador a espera, enquanto a Marcelina deu um adeusinho debochado. O Simão se virou e entrou no elevador exalando ódio.
- Vocês dois brincam com o perigo. Para quê chutar cachorro morto? - Eu encarei os dois que me responderam com risadas sonoras.
Nós nos viramos em direção a presidência do Grupo Albelini, com o Julian escoltando a Marcelinda e eu. Nós três estávamos unidos por um segredo e pela lealdade, no meu caso e do Julian lealdade aos Albelini, no caso da Marcelina lealdade a nossa amizade. Eu não pude deixar de pensar que ela estava ali se expondo, disposta a enfrentar qualquer coisa, unicamente para me ajudar, em nome de uma amizade fiel e feroz como eu nunca havia conhecido. Naquele breve percurso pelo corredor do Grupo Albelini, eu me dei conta de que antes dela e da Dalva eu nunca havia tido uma amiga de verdade, sincera e sem interesse e o valor disso era inestimável.
- Eu vou com você, Andrey. Preciso garantir que os trâmites jurídicos com o banco corram sem brechas. Nada pode dar errado. - O Érick avisou, deixando mais um beijo demorado nos meus lábios que me deixou sem ar. - Me espera aqui, Fada. Nós vamos comemorar isso em casa. Cuida delas, Julian, essa empresa ainda não é um lugar seguro.
- Nem precisa falar. - O Julian sorriu.
Assim que a porta se fechou, deixando apenas a mim, a Marcelina e o Julian na sala, eu desabei no sofá de couro, massageando as minhas têmporas. O ar finalmente parecia entrar nos meus pulmões, enquanto o Julian tirava o pingente com a câmera do pescoço da Marcelina e desligava o dispositivo.
- Pronto! Essa coisinha é mesmo uma maravilha. - O Julian comentou admirado.
- Julian, eu vou contar para ele hoje. - Eu falei, olhando direto para ele. - O Simão está liquidado. O Conselho já era. Não há mais perigo. Eu não posso mais esconder isso do Érick. O olhar de orgulho dele está me matando por dentro.
O Julian se aproximou e se sentou ao meu lado. O sorriso de canto dele sumiu, sendo substituído por uma frieza analítica.
- Ainda não, Lorena! Você ainda não pode contar. - A voz do Julian cortou o ar, contrariando todos os meus planos e me deixando tensa. Como eu ainda não poderia contar? Eu não poderia era manter essa mentira por mais tempo!

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