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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 178

"Lorena"

O Julian suspirou, passando a mão pelo rosto, perdendo aquela pose de homem intocável e inabalável por um milésimo de segundo. Ele segurou a minha mão e eu virei o meu rosto para encará-lo.

- Julian, você enlouqueceu? - Eu senti as minhas mãos tremerem de pura frustração. - O Érick confia em mim, ele me olha como se eu fosse a salvação dele, e eu sinto que estou cravando uma faca nas costas dele a cada segundo! Eu não posso mais viver com isso.

- Eu também não gosto de esconder isso dele. Mas você não vai contar nada para ele hoje, Lorena. - O tom do Julian foi baixo, firme e cortante como uma ordem.

- Julian, nós combinamos que... desde o início... essa mentira nem deveria ter existido. Eu errei e quando tudo aconteceu... eu só mantive essa mentira para proteger o Érick do Conselho. Agora eu não posso mais. - Eu tentei argumentar, mas o olhar dele era inflexível.

- Pode e vai! Pensa como a Lorena que encarou o Simão, não como a babá tímida e apaixonada, Lolô. Pensa como a Scarlat. - O Julian insistiu.

- Não repete esse nome. - Eu soltei num suspiro.

- Lorena, nós combinamos que manter o segredo era necessário até o Conselho cair. E o Conselho ainda não caiu. - Ele se inclinanou um pouco. - O Simão e a velha guarda do Conselho caiu, sim. Mas na quarta feira, os conselheiros vão entregar as cotas e uma daquelas cadeiras ainda será ocupada pelo sócio oculto. Nós ainda estamos totalmente às cegas sobre quem comprou aquelas ações nas últimas semanas. É o Simão jogando com laranjas? É um fundo internacional tentando uma aquisição hostil? Ou é alguém pior do que o Simão? Nós não sabemos.

- Com certeza não é o Simão. - A Marcelina se aproximou e se sentou do outro lado do Julian. - Ele perdeu, eu vi nos olhos dele. Ele não tem mais nada aqui. Nem dignidade.

- É o que parece, mas eu não me surpreenderia se ele estivesse tramando algo às escondidas. - O Julian era cauteloso e detalhista.

- O Julian tem razão, Lô. - A minha amiga murmurou. - O Érick fica irracional quando o assunto é você. Se você contar sobre a boate agora, ele vai explodir de ciúme e fúria. Você sabe que ele vai explodir quando descobrir que ficou no escuro com essa história. E a cabeça dele vai sair do jogo exatamente quando ele precisa estar mais focado do que nunca.

- Exatamente. - O Julian assentiu, os olhos fixos nos meus. - E se esse novo sócio for um inimigo pior que o Simão, ele vai usar a distração do Érick para engolir a holding por dentro. Se o Érick surtar agora por causa do passado, ele vai dar o que o novo sócio precisa para destruir o império dele. Além do mais, se essa história vier à tona agora e o Érick souber de tudo, ele fica exposto. Lolô, o Conselho não existe mais, mas o mercado é sensível, empresários emocionalmente instáveis ou com reputação duvidosa não sobrevivem. O seu advogado já te explicou isso.

- Meu Deus, quando isso vai acabar? Eu não suporto mentir para ele! - Eu fechei os olhos, sentindo o desespero e o medo me tomarem por dentro.

- Deixe a reunião de quarta feira passar. Vamos descobrir quem é o novo sócio e como podemos neutralizá-lo, depois que o poder estiver totalmente nas mãos dos Albelini... você conta. Eu estarei ao seu lado garantindo que o Érick escute e te ajudando a explicar tudo. Até lá, o seu silêncio é a maior proteção que o Érick tem. Ficou claro?

Eu engoli em seco, sentindo o peso daquela verdade. Eu olhei para a Marcelina, que me deu um aceno firme com a cabeça. O Julian estava certo. No fim das contas, o amor do Érick por mim era o seu ponto mais frágil e se ele desestabilizasse agora, ele poderia perder tudo.

- Ficou claro. - Eu sussurrei, cedendo à lógica fria do Julian. - Eu vou esperar até que você me diga que eu posso contar.

- Essa é a minha garota! - O Julian suavizou o tom, e o brilho atrevido dele voltou para os olhos no mesmo segundo em que ele desviou a atenção de mim e a fixou na Marcelina. - Agora que resolvemos os negócios da holding... Baby, precisamos falar sobre a sua mala de viagem. Duas garrafas de champanhe de dentro da bolsa? Vocês fizeram isso com todos os conselheiros?

- Vai, Baby, eu vou terminar as coisas por aqui rapidinho, mais tarde chego com o nosso champanhe. - O Julian respondeu, fazendo a Marcelina bufar.

- Escuta aqui, Beaumont, quando a reforma da sua casa termina, hein? Sabe como é, visita é igual peixe na geladeira, passou de três dias começa a feder. - A Marcelina sequer olhou para o Julian, que se levantou e a agarrou pela cintura, dando um selinho atrevido nela e a deixando sem reação.

- Para de mentir para si mesma, Baby! Nos vemos mais tarde. - O Julian deu uma piscadinha para ela e foi em direção a porta. - E você fica longe dela, Felino! - Ele avisou antes de sair.

- É, sobrei de novo. - O Andrey suspirou e se virou para mim. - Lolô, você foi incrível hoje! Você também, Tentação. E você, Albelini, descanse, porque quarta feira aquela sala de reunião vai pegar fogo.

- Obrigada, Andrey. - Eu forcei um sorriso.

O Érick entrelaçou os seus dedos nos meus, o aperto firme e quente me dando a ilusão de que tudo estava bem. Nós saímos da sua sala e passamos pela sua assistente com aquele ar de eficiência que eu já tinha visto antes, ela parecia estar sempre sobrecarregada e apressada, como quando me entrevistou.

Nós caminhamos em direção à saída da presidência, com a Marcelina logo atrás. Quando passamos pela secretária da recepção ela me deu o mesmo sorrisinho enigmático que tinha dado quando eu cheguei. Eu precisava conversar com aquela mulher e saber direitinho daquela história de que ela não tinha filhos, apenas gatos e porque ela mentiu para mim.

Mas enquanto o elevador descia em direção à garagem, eu esqueci completamente da secretária, com o que o Julian disse fazendo eco na minha cabeça, eu ainda tinha que sustentar aquela mentira.

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