"Lorena"
O Julian suspirou, passando a mão pelo rosto, perdendo aquela pose de homem intocável e inabalável por um milésimo de segundo. Ele segurou a minha mão e eu virei o meu rosto para encará-lo.
- Julian, você enlouqueceu? - Eu senti as minhas mãos tremerem de pura frustração. - O Érick confia em mim, ele me olha como se eu fosse a salvação dele, e eu sinto que estou cravando uma faca nas costas dele a cada segundo! Eu não posso mais viver com isso.
- Eu também não gosto de esconder isso dele. Mas você não vai contar nada para ele hoje, Lorena. - O tom do Julian foi baixo, firme e cortante como uma ordem.
- Julian, nós combinamos que... desde o início... essa mentira nem deveria ter existido. Eu errei e quando tudo aconteceu... eu só mantive essa mentira para proteger o Érick do Conselho. Agora eu não posso mais. - Eu tentei argumentar, mas o olhar dele era inflexível.
- Pode e vai! Pensa como a Lorena que encarou o Simão, não como a babá tímida e apaixonada, Lolô. Pensa como a Scarlat. - O Julian insistiu.
- Não repete esse nome. - Eu soltei num suspiro.
- Lorena, nós combinamos que manter o segredo era necessário até o Conselho cair. E o Conselho ainda não caiu. - Ele se inclinanou um pouco. - O Simão e a velha guarda do Conselho caiu, sim. Mas na quarta feira, os conselheiros vão entregar as cotas e uma daquelas cadeiras ainda será ocupada pelo sócio oculto. Nós ainda estamos totalmente às cegas sobre quem comprou aquelas ações nas últimas semanas. É o Simão jogando com laranjas? É um fundo internacional tentando uma aquisição hostil? Ou é alguém pior do que o Simão? Nós não sabemos.
- Com certeza não é o Simão. - A Marcelina se aproximou e se sentou do outro lado do Julian. - Ele perdeu, eu vi nos olhos dele. Ele não tem mais nada aqui. Nem dignidade.
- É o que parece, mas eu não me surpreenderia se ele estivesse tramando algo às escondidas. - O Julian era cauteloso e detalhista.
- O Julian tem razão, Lô. - A minha amiga murmurou. - O Érick fica irracional quando o assunto é você. Se você contar sobre a boate agora, ele vai explodir de ciúme e fúria. Você sabe que ele vai explodir quando descobrir que ficou no escuro com essa história. E a cabeça dele vai sair do jogo exatamente quando ele precisa estar mais focado do que nunca.
- Exatamente. - O Julian assentiu, os olhos fixos nos meus. - E se esse novo sócio for um inimigo pior que o Simão, ele vai usar a distração do Érick para engolir a holding por dentro. Se o Érick surtar agora por causa do passado, ele vai dar o que o novo sócio precisa para destruir o império dele. Além do mais, se essa história vier à tona agora e o Érick souber de tudo, ele fica exposto. Lolô, o Conselho não existe mais, mas o mercado é sensível, empresários emocionalmente instáveis ou com reputação duvidosa não sobrevivem. O seu advogado já te explicou isso.
- Meu Deus, quando isso vai acabar? Eu não suporto mentir para ele! - Eu fechei os olhos, sentindo o desespero e o medo me tomarem por dentro.
- Deixe a reunião de quarta feira passar. Vamos descobrir quem é o novo sócio e como podemos neutralizá-lo, depois que o poder estiver totalmente nas mãos dos Albelini... você conta. Eu estarei ao seu lado garantindo que o Érick escute e te ajudando a explicar tudo. Até lá, o seu silêncio é a maior proteção que o Érick tem. Ficou claro?
Eu engoli em seco, sentindo o peso daquela verdade. Eu olhei para a Marcelina, que me deu um aceno firme com a cabeça. O Julian estava certo. No fim das contas, o amor do Érick por mim era o seu ponto mais frágil e se ele desestabilizasse agora, ele poderia perder tudo.
- Ficou claro. - Eu sussurrei, cedendo à lógica fria do Julian. - Eu vou esperar até que você me diga que eu posso contar.
- Essa é a minha garota! - O Julian suavizou o tom, e o brilho atrevido dele voltou para os olhos no mesmo segundo em que ele desviou a atenção de mim e a fixou na Marcelina. - Agora que resolvemos os negócios da holding... Baby, precisamos falar sobre a sua mala de viagem. Duas garrafas de champanhe de dentro da bolsa? Vocês fizeram isso com todos os conselheiros?

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